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Archive for the ‘Otras cositas más’ Category

Hoje, 13 de fevereiro de 2017, levei o Barba para assistir São Paulo FC x Ponte Preta. Assistir é um eufemismo, a diabete levou boa parte da visão dele. Na verdade levei ele pra sentir o Morumbi.

Conheci o Barba há uns 20 anos atrás quando comecei a militar na Força Socialista. Professor, comunista e tricolor fanático.

Foi ele quem me levou pela primeira vez para ver um jogo no estádio, há 17 anos. Foi um SPFC contra Flamengo de Guarulhos, no campo deles. Vitória nossa por 4 a 0. Nessa Copa São Paulo fomos em outros jogos, em especial a final no Pacaembú super lotado e vitória sobre o moleque travesso.

Ainda em 2000, vimos o tricolor ser campeão paulista sobre o Santos em dois jogos no Morumbi. Aliás, foi o Barba que me apresentou ao Monumental.

Foram dezenas de jogos que fomos juntos. A maioria no Morumbi, mas fomos até o Canindé e Vila Belmiro.

Em função do problema de visão, fazia tempo que ele não ia ao Morumbi (antes ele ia em praticamente todas as partidas), hoje foi meu dia de retribuir um pouquinho das alegrias que ele me proporcionou. O vídeo é um pequeno registro desse reencontro com o Morumbi.

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Fui secretário da JPT na reeleição de Marta Suplicy, vi de dentro da executiva municipal do PT, como a ex-alcaide colocou de joelhos o partido. Foi nessa eleição, de 2004, que se notablizaram os “moranguinhos” cabos eleitorais pagos para balançar bandeiras nos faróis.

A crise do PT tem muito do dedo de Marta, como prefeita, dirigente e parlamentar. Nada mais coerente que se abrigar num partido que em SP é satélite dos tucanos.

Neste artigo, em parceria com Ramon Szermeta e Jaime Cabral filho discutimos a trajetória da sra. Smith.

O ocaso de Marta

Por Ramon Szeremta, Eduardo Valdoski e Jaime Cabral Filho

O ocaso é o momento que antecede o anoitecer. É o último brilho do sol, antes da escuridão. Como fenômeno natural é romântico e inspirador. Mas do ponto de vista pessoal, deve ser desesperador para alguns. Parece que a senadora Marta Teresa Smith de Vasconcellos vive um desses momentos.

Ascensão

Marta tem uma história interessante e respeitável. Feminista, fundadora do PT, militante das causas democráticas, quebrou tabus e chocou o conservadorismo paulistano e brasileiro quando quase ninguém tinham coragem. Mesmo sendo de um meio abastado, se colocou desde o princípio ao lado dos mais pobres, dos trabalhadores. Na televisão, em plenos anos 1980, discutia abertamente os direitos sexuais e reprodutivos da mulher. Nos anos 1990 foi deputada influente e atuante. O reconhecimento veio como candidata a governadora pelo PT em 1998. Lula a pegou pelo braço e convenceu o partido disso. O seu desempenho e do partido foram tão bons que ela só ficou de fora do segundo turno por um triz, graças às clássicas manipulações da nossa elite, através de falsas pesquisas eleitorais que geraram um voto útil em Mário Covas.

Apogeu


A recompensa veio dois anos depois. Candidata pelo PT de São Paulo, ganha a prefeitura derrotando Paulo Maluf, depois de 8 caóticos anos de gestão Maluf/Pitta, numa cidade atolada em escândalos de corrupção e sufocada do ponto de vista social. A trágica situação municipal coincidia com uma crise nacional provocada pelo (des)governo FHC: crise, desemprego, movimentos sociais nas ruas, em um cenário que permitiu ao PT eleger o maior número de prefeituras de sua história nas eleições municipais de 2000.

Marta também vence a eleição e conduz uma gestão que não apenas produz importantes mudanças na cidade, como cria marcas sociais para o PT em nível nacional.  Em vários aspectos, sua administração foi precursora de políticas públicas que seriam aprofundadas no governo Lula (fortes programas de distribuição de renda, investimentos em educação, ajustes fiscais, importantes mudanças produzidas na área de transporte), e também das consequências políticas dessas inversões de prioridades no orçamento, a mais evidente, divisão centro x periferia / ricos x pobres.

Durante sua gestão a prefeita não perdeu tempo. Montou seu grupo político que hegemonizou o PT paulistano. Os petistas críticos ao seu governo não tiveram moleza. O partido perdeu autonomia, em nome do governismo cego, da adesão automática, e também nisso ela antecipou aspectos do lulismo. O grupo de Marta cresceu e se fortaleceu. Alçou voos estaduais e nacionais. A capital era pouco. Lula ganha em 2002 e novos ventos sopram. Marta se mostra satisfeita com a escolha de Henrique Meirelles, ex-presidente do Bank Boston, recém eleito deputado pelo PSDB de Goiás, para o Banco Central. Muitos petistas e simpatizantes não concordaram com a indicação, alguns até se sentiram traídos, mas Marta não lembrava deles naquela época. Ademais, ela tinha ótima relação com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, responsável pelo aprofundamento de ortodoxia econômica neoliberal e homem do governo que transitava pelo mercado financeiro. Ela é defensora pública dos ajustes econômicos, ditos necessários. Em 2004, a campanha pela reeleição começa promissora, e quem sabe passos maiores a serem dados no futuro? Mas a política sempre ensina.

Queda

Depois da primeira gestão do PT em São Paulo, com Luiza Erundina eleita em 1988, a segunda com Marta foi a que mais produziu avanços sociais inquestionáveis. Cada uma a sua conjuntura. Porém, uma série de erros políticos de sua campanha somados a uma sórdida cruzada da oposição e da mídia contra uma mulher livre para fazer suas escolhas, firme nas suas opiniões e que tentou implementar a progressividade de impostos na cidade, conseguiu derrotar o projeto que estava em curso em SP. A campanha da reeleição de Marta foi assustadora para muitos petistas. A disseminação de cabos eleitorais pagos em detrimento das instâncias e da militância voluntária e politizada, os carregadores de bandeiras e “visibilidade” nas ruas que substituem o debate político organizado, a marquetagem no lugar do programa. São de fato novos tempos no PT. A cereja do bolo foi que pela primeira vez na história do PT um candidato do partido se viu acompanhado por uma presença muito estranha ao petismo na disputa do segundo turno, o ex-adversário político Paulo Sallim Maluf, maior inimigo do projeto democrático do PT, agora figurando nos materiais de campanha da Prefeita. Ela é sem dúvida uma pessoa precursora e visionária. Nada adianta, e ela perde a eleição para José Serra do PSDB, com o Gilberto Kassab, futuro algoz da senadora, de vice.

Marta perde a eleição, é rejeitada pelo povo paulistano, e o PT perde junto parte de sua identidade. Todavia, pra que desistir? Em 2006, a todo custo, Marta se joga numa disputa contra Mercadante com o objetivo de ser candidata a governadora. Dessa vez é a militância do PT que rejeita Marta. Quase todas as lideranças públicas do PT se unem contra ela. A fatura para apoiar Mercadante é cara. Marta vai para o Ministério do Turismo, onde tem passagem discreta. Exceto por um ou outro episódio midiático. E dai? o que importa é que tem mais eleição chegando. E eleição é com ela mesma. Dessa vez quem impõe sua candidatura é Marta. Ela pode. A eleição, uma das piores da história da cidade, transcorre sem grandes assuntos, termina com a reeleição de Kassab, o homem que entrega a cidade para o mercado imobiliário e as 32 subprefeituras para os coronéis da PM. Marta começa na frente, mas sua rejeição é tão alta que a queda livre é inevitável. Todos os ingredientes que levaram a derrota do PT em 2004 estão de volta e Marta, já desesperada, uma histórica defensora do movimento LGBT, faz perguntas dúbias no seu horário de televisão sobre a vida íntima do seu oponente. Além de perder na urna e ser novamente rejeitada, Marta rasga sua própria reputação de defensora dos direitos civis, e faz todos seus apoiadores passarem vergonha. Mais uma campanha que ajuda a desfigurar nosso PT velho de guerra.

O próximo capítulo? Ora, em 2010 tem mais eleição. E eleição é com ela mesma. Dessa vez uma coisa mais compatível, o Senado Federal. Já que não dá pra ser presidenta, o negócio é a Câmara dos Lordes. Eram duas vagas para senador, e ela alcançou espantosos 22%. Não ganha, não é totalmente rejeitada, mas leva o patamar histórico do PT lá pra baixo. Os petistas “fazem” a campanha dela conforme o estômago permite.

A queda da queda  

Agora com um mandato de oito anos garantido, o negócio é atrapalhar quem puder. O poço não tem fim. Mais uma eleição se aproxima. E eleição é com ela mesma. 2012, o PT necessita urgentemente de novos quadros para disputar a estratégica eleição da capital paulista. O então Ministro da Educação, Fernando Haddad, é visto por muitos como o mais preparado para a disputa. Tem um cabo eleitoral de peso, o ex-presidente Lula. O PT paulistano, ainda um pouco contaminado pelos sombrios tempos de domínio “martista”, apresenta resistência. Felizmente é conversando que as pessoas se entendem, e o partido assume rapidamente a candidatura sugerida por Lula.

A senadora não. Ela se nega. “- Como assim a escolhida não fui eu?” Já que a primeira gestão de Marta/PT é muito exitosa em matéria de política para as periferias e depois de oito anos pouco se avançou com Kassab, ela se sente a dona da perifa. Talvez muita convivência com antigos adversários a fez adquirir hábitos e visões similares aos da nossa elite. Nós petistas sabemos que a periferia não tem dono, e o presidente Lula entra de cabeça na parada. Uma campanha marcada por um programa político qualificado e por uma coordenação que conseguiu unificar a diversidade do PT e ao mesmo tempo envolver não apenas a militância como também muita juventude e gente animada que contribuiu solidariamente com o projeto construído por diversas cabeças para sintonizar a cidade de São Paulo com as mudanças que vinham ocorrendo no país.

Pra entrar numa campanha tão bonita e vitoriosa como essa Marta cobrou e todo mundo viu. A fatura para apoiar Haddad é cara. Ministério da Cultura. Haddad e o PT ganham inspirando a cidade a produzir coisas novas. Marta ganha um espaço só dela. Passa pelo ministério da cultura, discretamente, exceto por um ou outro fato midiático. Consegue sair pela porta dos fundos do governo, conspirando em público contra a presidenta, usando argumentos chulos da oposição. É tanto vexame que a permanência no partido que ela ajudou a fundar 35 anos atrás é insustentável.

Triste fim de uma morte anunciada

Na transição do primeiro para o segundo mandato de Dilma ela tem que aparecer. Não há limites para sua ambição pessoal, não há mais projeto coletivo. O seu lema é: “se eu não jogo, ninguém joga”. A coisa é tão ridícula, que a obsessão pela prefeitura aparenta ares de missão divina, custe a vergonha pública que custar.

Como já vimos, a senadora não tem problemas com ortodoxias econômicas, nem com composições ecléticas que ela ajudou a instituir no PT. Em 2014 o governo federal fez superávit zero. Isso significa menos dinheiro pra roda financeira e mais dinheiro pra o país. O que Marta disse sobre isso? Marta exige que sejamos transparentes com o mercado financeiro. O que é isso? Transparência deve ser com a população, a cidadania. O povo que deve mandar na política, e não só no momento das eleições que ela tanto gosta. A senadora vem escrevendo artigos na Folha de São Paulo que são obras primas de como não fazer política, pois ela é incapaz de discutir uma medida concreta e ajudar a elevar o nível do debate político. Ela joga com a desinformação e o terrorismo, exatamente como já fizeram muitas vezes contra ela. Marta Teresa Smith de Vasconcellos se transforma numa reprodutora do esgoto midiático.

No PT ela nunca soube o significado da palavra instância ou decisão coletiva. Mas agora joga pra platéia. Se o PT não tivesse perdido eleições seguidas em São Paulo (apoiados por boa parte do partido em vários momentos, diga-se de passagem) talvez não tivéssemos cobras criadas como Gilberto Kassab. Agora, quem se diz tão preocupada com a economia, a luz, o desemprego e a falta de confiança do mercado no governo federal, está na verdade negociando seu futuro político e pessoal com as dezenas de siglas de aluguel e barganhando desavergonhosamente com quem oferecer mais. E ainda acha, moderna que é, que em pleno século XXI, pode enganar alguém, fazendo o jogo da velha política conservadora brasileira? Não é novidade nenhuma na história pessoas que gritam para esquerda se jogando em seguida no colo da direita.

Ramon Szermeta é ex-secretário estadual da JPT/SP (2001-08)

Eduardo Valdoski é ex-secretário adjunto nacional da JPT (2006-08) e municipal da JPT da cidade de São Paulo (2003-05)

Jaime Cabral Filho é ex-secretário municipal da JPT da cidade de São Paulo (1999-03)

Publicado originalmente na Carta Maior

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Ontem fui com o Caio no estádio, foi a primeira vez que ele assistiu o jogo no campo, foi bem legal, ele super curioso,

perguntando sobre cada detalhe.

Lembrei ontem da minha primeira vez. Foi com meu amigo e companheiro Barba. Diferente do Caio eu já era meio velhinho, tinha 17 anos e foi na Copa São Paulo de Futebol Jr de 2000.

O jogo? São Paulo FC contra Guarulhos, no campo do Flamengo (não, não era o do Rio – inclusive porque aquele não tem campo – era o de Guarulhos mesmo). Foi 4 x 0 para o tricolor.

Nessa Copa SP, ainda fui com o Barba em outras partidas, a mais emocionante e importante foi a final contra o Moleque Travesso, o tradicioanl Juventus da Mooca.

O jogo foi 2 x 1 de virada com direito ao SPFC desperdiçar pênalti quando ainda perdia o jogo. Mas o sofrimento maior foi entrar no Pacaembu, que certamente teve superlotação naquela manhã, mas que conseguimos graças a malandragem do Barba.

Meu pai teve um papel fundamental em me fazer ser tricolor, e o Barba também foi fundamental, me deu o gosto pelo Estádio. Me lembro, em mais de uma oportunidade, de encontrá-lo no Morumbi, ouvindo o jogo, sim, ouvindo o barulho da torcida, ele teve diabetes e ficou com a visão muito comprometida, por isso ia ao estádio e sentava no túnel que dá na arquibancada e ficava ali ouvindo o jogo.

Tenho certeza que virei um arquibaldo com a melhor pessoa que poderia ser, o Barba me deu o gosto pelo estádio. E você? Conte aí como foi sua primeira vez!

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Agora a pouco foi ao ar a edição do programa da TV Globo, Profissão Repórter, que cobriu os protestos no mundo. Eles foram a Nova Iorque cobrir o #occupywallstreet, ao similiar britânico, aos protestos contra o ajuste fiscal na Grécia e à praça sede da primavera árabe no Egito.

Há muito, que para mim este programa é o melhor jornalístico da TV brasileira, pois vai à essência do jornalismo, ou seja: a reportagem. Não é por acaso, pois é comandado por Caco Barcelos, um dos melhores jornalistas do país.

Afora a qualidade geral, acima da média, esta edição em particular traz um tema relevante, que são os protestos anticapitalistas e a primavera árabe.

Me chamou atenção também, a cena com brasileiros no aeroporto de Guarulhos que moravam na Europa e estão voltando ao país, pois é aqui que estão as oportunidades, evidenciando o bom momento que os governos de Lula e Dilma proporcionaram ao Brasil.

Contrasta com  a juventude grega, com diploma universitário na mão ver a perspectiva de futuro em outro país. Essa pode ser uma consequência mais dura, no longo prazo, do que propriamente a crise e o ajuste fiscal.

Vale a pena assistir!

 

Primeira parte
Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Segunda parte
Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Ótimo artigo do vereador de São Paulo, Jamil Murad (PCdoB) sobre a discussão a respeito das drogas e sobre propostas como a internação compulsória. Uma discussão fundamental sobre a problemática do crack, que tem vitimado milhares de jovens brasileiros, em particular os mais pobres.

O risco dos “depósitos humanos”

Diante do grave quadro de crescimento no consumo do crack em diversas cidades do país, soluções variadas têm sido debatidas. A mais polêmica propõe a internação compulsória especialmente dos dependentes que vivem nas ruas. A proposta, no entanto, não é encarada como a melhor saída para o problema, que demanda tratamento médico, acompanhamento multidisciplinar e reinserção sócio-familiar.

por Jamil Murad, no Viomundo

O uso de substâncias alucinógenas ou que alterem os sentidos é milenar na história da humanidade. Possivelmente, permeou a existência de alguns dos nossos mais antigos antepassados – que recorriam a diversas plantas para fins geralmente ligados à religião e à medicina – e certamente continuará a fazer parte de nosso cotidiano.

No entanto, na contemporaneidade o processo que levou à exacerbação da sociedade do consumo parece ter resultado em uma nova relação com as drogas e na sua maior disseminação e grau de dependência. O conhecido “vazio existencial” e as doenças cuja intensificação está associada à modernidade, como a depressão, é um dos fatores que levam uma parcela considerável da população a recorrer aos mais diversos tipos de droga como saída paliativa às suas angústias.

Por outro lado, as drogas são usadas para buscar novas experiências, para auto-afirmação social ou mesmo para turbinar a sensação de felicidade e bem-estar. Fator igualmente importante é que, especialmente no caso de substâncias de mais baixo custo, maior poder de alucinação e alto grau de dependência, como o crack, a utilização serve para aplacar as dores de populações em condições sócio-familiares vulneráveis, como os moradores de rua.

Outro aspecto a ser considerado é que o mercado de drogas está entre as mais rentáveis atividades econômicas do mundo, ou seja, de uma maneira ou de outra, ainda que seja feito o combate ao tráfico, as estruturas criminosas usarão dos mais diversos artifícios para potencializar seus lucros e manter girando a roda do negócio. E uma das maneiras é fazer com que as substâncias cheguem a cada vez mais pessoas de idade cada vez menor.

Nestas situações, ou quando a somatória dessas diversas motivações e fatores leva a um descontrole do uso de drogas, passa a ser imprescindível a interferência do poder público tanto do ponto de vista preventivo – o que inclui desde ações de inteligência e combate ao tráfico até a educação de crianças e jovens – como no âmbito do tratamento multidisciplinar – envolvendo desde aspectos ambulatoriais até a ressocialização dos dependentes em estado mais preocupante.

A gravidade da situação de milhares de usuários Brasil afora ganhou contornos de tragédia nacional, entrando na agenda oficial do governo federal e chamando maior atenção dos poderes locais.

Quando o crack supera o álcool

Não são apenas as substâncias ilegais que causam preocupação. O consumo de álcool, especialmente em nossa juventude, é outro dado alarmante. Pesquisa realizada pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) com 17 mil estudantes universitários de todas as capitais mostrou que 86% deles consumiram álcool e que nesse universo, 22% podem desenvolver dependência. Mas, por se tratar de uma droga socialmente aceita e de menor agressividade tóxica quando comparada ao crack, por exemplo, tem sido tolerada ao longo dos anos. Além disso, seu consumo é propagandeado nos principais meios de comunicação, o que contribui para naturalizar o seu uso. Mas, a epidemia de crack já chega, em alguns aspectos, a superar o álcool.

Um levantamento feito pela Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, da Assembleia Legislativa de São Paulo, mostra que especialmente no interior paulista, em cidades entre 50 mil e 100 mil habitantes, o crack se equipara ao álcool no número de atendimentos na rede pública de saúde: 38% cada.

Para chegar a estes dados, foram enviados questionários aos administradores de todos os 645 municípios paulistas; 325 deles o responderam, representando 76% da população.

No estado como um todo, dentre os usuários de algum tipo de droga lícita ou ilícita que buscam atendimento, 49% estão ligados ao vício do álcool; o crack vem depois, com 31%, seguido da cocaína (10%), maconha (9%) e drogas sintéticas (0,59%). O levantamento mostrou também que tem sido alto o consumo entre os cortadores de cana.

Inversamente contrário às necessidades dos municípios é a ajuda vinda dos entes estadual e federal. Segundo as respostas dos gestores, apenas 5% das prefeituras recebem recursos estaduais para lidar com o problema e apenas 12% dizem receber ajuda federal.

Alcance devastador

Resultante da mistura da pasta-base de coca ou cocaína refinada com bicarbonato de sódio e água, o crack pode ainda conter outras substâncias tóxicas tais como, por exemplo, querosene, cal, cimento e soda cáustica. Por ser fumado, alcança diretamente o pulmão, órgão que, devido à sua vascularização e tamanho, tem a absorção facilitada, levando a substância rapidamente à circulação sanguínea e ao cérebro.

Conforme informações da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, em 10 a 15 segundos, os primeiros efeitos já ocorrem, enquanto após cheirar cocaína surgem depois de 10 a 15 minutos, e após a injeção, em 3 a 5 minutos. “Essa característica faz do crack uma droga ‘poderosa’ do ponto de vista do usuário, já que o prazer acontece quase instantaneamente após uma ‘pipada’ (fumada no cachimbo)”, informa.

No entanto, a sensação dura pouco: cerca de cinco minutos; no caso de cheirar ou inalar cocaína, varia de 20 a 45 minutos. Conforme explica a Senad, isso faz com que o usuário volte a utilizar a droga com mais frequência que as outras (praticamente de cinco em cinco minutos), facilitando a dependência.

Propostas em questão

Conforme dados da Organização Mundial de Saúde, a estimativa é de que haja no Brasil 6 milhões de usuários de crack, equivalentes a cerca de 3% da população, enquanto o Ministério da Saúde trabalha com cerca de 2 milhões. Estudo realizado pela Unifesp e pela Senad adotado nas Diretrizes Gerais Médicas do Conselho Federal de Medicina (CFM) indica que um terço dos usuários encontra a cura, outro terço mantém o uso e outro terço morre, sendo que 85% dos casos estão relacionados à violência.

O CFM defende intervenções dentro dos preceitos legais para desintoxicação como medida inicial, ressaltando que o paciente deve “ter acesso à rede de tratamento ambulatorial bem como aos processos integrados”.

Para o Conselho, além das questões de cunho médico, é preciso criar uma rede multidisciplinar que englobe, entre outros fatores, ações preventivas através da sensibilização e capacitação dos profissionais de saúde e educação; identificação precoce e encaminhamento adequado; desintoxicação via tratamento e suporte sintomático; tratamento das comorbidades clínicas e psiquiátricas; aplicação de estratégias de psicoeducação trabalhando fatores de risco, entre outros.

No âmbito federal, a busca por saídas levou à elaboração de um Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas, lançado em maio de 2010 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com um orçamento inicial na ordem de R$ 410 milhões para aquele ano a serem utilizados em ações de prevenção, atenção e reinserção social de usuários e dependentes, e repressão ao tráfico.

A presidenta Dilma Rousseff deu continuidade ao plano e no começo deste ano, durante lançamento de 49 Centros de Referência em Crack e outras Drogas, declarou: “Temos um quadro extremamente preocupante no que se refere às drogas e à criminalidade. Meu governo vai fazer um combate sustentável ao crack. Tenho o compromisso de levar uma luta sem quartel ao crack”. As ações federais são passos positivos, especialmente levando-se em conta que até 1998, não havia no Brasil uma política pública voltada para as drogas. E mostram que o governo está se comprometendo a enfrentar a questão.

No âmbito municipal, as coisas são mais preocupantes. Uma forte polêmica, opondo parte do setor médico e entidades ligadas aos direitos humanos às autoridades públicas, veio à tona com mais força a partir da política adotada na cidade do Rio de Janeiro.

O uso da polícia no processo de recolhimento de crianças nas ruas e sua condução a delegacias policiais, num flagrante desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), levaram o Ministério Público Estadual a propor à Secretaria Municipal de Assistência Social o compromisso de assinar um termo de ajuste de conduta a fim de que seja revista a tática usada pela prefeitura carioca. Até agosto, as operações teriam resultado no acolhimento de mais 1.300 pessoas, das quais pouco mais de 250 eram crianças e adolescentes.

No caso da cidade de São Paulo, não levou muito tempo para que a prefeitura cogitasse aplicar a mesma tática do Rio de Janeiro, o que indica um perigoso potencial de reprodução em âmbito estadual e mesmo nacional dada a influência que a capital tem sobre as demais cidades. Interesses econômico-imobiliários focados no projeto “Nova Luz” e a percepção de boa parcela da população de que a presença de usuários nas ruas é uma ameaça à sua segurança e degrada a cidade estão na essência do posicionamento assumido pela administração municipal.

Neste contexto que envolve as duas maiores capitais do país, a tática da internação compulsória ganhou capas de jornais e revistas e se tornou a grande panaceia daqueles que querem extirpar o problema sem ter de enfrentar sua essência. Estimativas do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) apontam que devem existir na cracolândia, região central da cidade, cerca de 2 mil usuários. Muitas dessas pessoas, de fato, encontram-se em situação deplorável: já não têm total consciência de seus atos, dormem e acordam nas ruas, passam fome, frio e todo tipo de violência, se afastam de seus familiares e contraem doenças de toda espécie.

Mas, recolher essas pessoas à força e trancafiá-las num espaço físico qualquer, tirando-as da vista da sociedade, não se configura em solução adequada. É preciso uma abordagem multidisciplinar feita por profissionais treinados para a situação.

Em casos muito extremos de dependência ou de surtos psicóticos que ponham em risco a vida do usuário, pode ser necessária a internação. Porém, é preciso que haja uma avaliação médica cuidadosa e autorização judicial, além de uma estrutura de tratamento completa. O recolhimento desordenado de todo e qualquer usuário é medida policialesca e de pouca eficácia, conforme tem sido colocado por diversos especialistas.

Reação à internação compulsória

Diante deste quadro alarmante e na busca por soluções que fujam do rol das respostas simplistas, autoritárias e higienistas, a Comissão de Direitos Humanos, Cidadania, Segurança Pública e Relações Internacionais da Câmara Municipal de São Paulo realizou debate sobre o tema.

Com base nas opiniões expostas por especialistas da área médica, jurídica, psicológica e representantes da administração pública, ficou claro que é preciso enfrentar a questão principalmente nos âmbitos familiar, social, educacional e da saúde. É preciso associar ações nestas áreas, oferecendo assim uma saída multissetorial. Um olhar especial deve estar voltado para a questão dos moradores de rua, principalmente as crianças e adolescentes.

Conforme dados do Projeto Quixote, ligado ao Departamento de Psiquiatria da Unifesp, obtidos através de 209 entrevistas feitas com crianças e adolescentes atendidas por ele, apenas 12% dos usuários foram para as ruas por causa da droga.

O abandono e a negligência por pais e parentes (37%) e as violências familiar (18%) e sexual (15%) são os principais fatores. Ou seja, a desestruturação das relações sócio-familiares, a falta de perspectivas, de apoio, afeto e educação levam parte de nossos jovens, já em sua tenra idade, a caírem na armadilha das drogas. Além disso, essas informações mostram que os recursos médicos respondem por uma parte do tratamento; é preciso uma rede de sustentação que faça com o que o usuário – criança ou adulto – seja inserido socialmente, veja-se como parte da cidade, tenha perspectivas futuras de estudo, emprego, saúde e convívio familiar. Sanar a doença sem oferecer novos rumos é como enxugar gelo: não resolve a questão.

Durante o debate que realizamos, um caso chamou atenção. O psiquiatra da Faculdade Paulista de Medicina, Dartiu Xavier, coordenador do Programa de Orientação e Tratamento a Dependentes (Proad),criado há 24 anos, recordou ter testemunhado o relato de uma menina que usava crack para não sentir a dor física de ter de se prostituir e, assim, garantir seu sustento. Para aquela menina, lembrou, a droga era a solução e não o problema de seu cotidiano. Mas ele advertiu que internar sem a concordância do usuário não é o caminho mais adequado para lidar com a brutalidade de situações como essa. “Posso afirmar que 98% das pessoas que são internadas compulsoriamente recaem, sendo, portanto, um método de baixa eficácia. Aliás, mesmo com a internação voluntária, o sucesso não é muito grande”. Segundo ele, ainda que haja insuficiências, os melhores métodos atualmente são os de atendimento ambulatorial, como os empregados nos Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Droga (Caps-AD).

Do ponto de vista jurídico, Luiz Fernando Vidal, membro do Conselho da Associação Juízes para a Democracia, alertou para o fato de que nenhuma alternativa deve desrespeitar a autonomia do indivíduo. “Não se pode admitir nenhuma intervenção de conteúdo autoritário na abordagem desse problema. Não havendo um programa, governos correm o risco de agir na base do voluntarismo, desprovidos de conhecimentos e base teórica e científica”.

Eduardo Ferreira Valério, promotor público da Divisão de Inclusão Social, disse que apesar de não haver ainda um parecer oficial do Ministério Público paulista sobre o assunto, “o MP não concordará com as internações compulsórias que signifiquem a mera remoção dos dependentes, sem um projeto que contemple o tratamento, sobretudo ambulatorial, propicie refazer os laços familiares e ofereça alternativas de profissionalização e moradia para que não retornem às ruas”.

Resolver essa situação não é tarefa simples: não dispomos de fórmulas prontas, nem há soluções definitivas. Além disso, a questão muitas vezes fica permeada por um forte recorte de classe e uma visão elitista do problema que podem resultar em ações cosméticas e que colocam o uso da droga em si como foco deste drama, ignorando o que de fato está por trás do aumento de seu uso.

A prevenção, por meio da educação e da conscientização, ainda é o melhor caminho para se evitar epidemias de quaisquer drogas. Também é preciso criar uma rede de atendimento aos dependentes que contemple o tratamento médico por meio de centros de referência e a reinserção social e familiar.

A internação compulsória casada à falta de uma estrutura abrangente e que permita aos dependentes serem tratados e ressocializados leva ao risco de as cidades, especialmente São Paulo, ganharem verdadeiros “depósitos humanos”, cuja função seria simplesmente retirar os dependentes das vistas da população, uma resposta higienista que não resolveria efetivamente esta situação e infringiria o direito humano básico à vida, à liberdade e à dignidade.

 

Jamil Murad é médico,  vereador, líder do PCdoB e presidente da Comissão de Direitos Humanos,Cidadania, Segurança Pública e Relações Internacionais da Câmara Municipal de São Paulo

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Me disseram que este poema faz lembrar de mim… Acho que tem razão!

Liberdade

Fernando Pessoa

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

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Recebi da amiga Alessandra Terribili, com quem já compartilhei muitos telefones nas mesas de bar. Como ela disse:  “Identidade imediata!”

Pelo celular

Luis Fernando Verissimo – O Estado de S.Paulo

Você já deve ter tido a experiência. Está numa mesa de bar com uma turma, as bolachas de chope se multiplicam sobre a mesa, a conversa esquenta e de repente alguém se lembra de alguém. De um que prometera ir ao bar e não aparecera, de um amigo comum de todos que ninguém mais vira… E fatalmente alguém pega um telefone celular e diz “Vamos ligar para esse vagabundo”.
 
Quando localizam o vagabundo, todos se revezam no telefone, xingando o ausente, intimando-o a aparecer, imitando voz de mulher e dizendo “Adivinha quem é?”, fazendo ruídos de bichos, etc. Mas podem ir longe demais.
 
Alguém na mesa pergunta “Que fim levou o Santoro?” e passam a catar o Santoro com o celular. Primeiro ligam para um número antigo dele, depois chegam a uma irmã dele através de uma moça do serviço de assistência ao assinante miraculosamente eficiente, depois chegam ao próprio Santoro, que faz um curso de informática em Grenoble, na França, e atende o chamado apavorado.
 
– Que foi? Que foi?
– Seu veado! Onde é que você anda?
– É a mamãe, é? Mamãe está bem?
– Que mamãe? Aqui é o Jander.
– Quem?!
– O Jander. Já esqueceu dos amigos, é?
– Jander, você sabe que horas são aqui?
– Aí não é mais cedo?
 
Jander ouve cinco minutos de desaforo antes de desligar o celular e dizer, magoado: “Como as pessoas mudam, né?”. Dias depois ouvem que o Santoro ficou tão nervoso com o telefonema no meio da noite que abandonou o curso de informática, abandonou a França, voltou para junto da dona Djalmira, sua mãe, e está trabalhando no armarinho da família. O telefonema tinha mudado a sua vida por completo.
 
Outra: alguém na mesa diz que tem o telefone particular do Obama, na Casa Branca. Conseguiu na internet. Podem ligar para lá e quando o Obama atender dizer “Olha, é do Brasil, foi o senhor que esqueceu uma meia-calça no hotel?”, ou “Aqui é o Kadafi, posso falar com a Michelle?”. Aí alguém lembra que os americanos podem rastrear todas as chamadas para a Casa Branca, localizá-los por satélites e bombardearem o bar.
 
E há o mais bêbado de todos que diz que precisa ligar para o Ferreirinha pra saber como ele vai.
 
– Você esqueceu? O Ferreirinha já morreu. Está no Além.
– Eu sei – diz o outro, com o dedo já pronto para digitar. – Qual será o número?
 
E as bolachas de chope se empilhando.

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