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Archive for the ‘Futebol’ Category

Hoje, 13 de fevereiro de 2017, levei o Barba para assistir São Paulo FC x Ponte Preta. Assistir é um eufemismo, a diabete levou boa parte da visão dele. Na verdade levei ele pra sentir o Morumbi.

Conheci o Barba há uns 20 anos atrás quando comecei a militar na Força Socialista. Professor, comunista e tricolor fanático.

Foi ele quem me levou pela primeira vez para ver um jogo no estádio, há 17 anos. Foi um SPFC contra Flamengo de Guarulhos, no campo deles. Vitória nossa por 4 a 0. Nessa Copa São Paulo fomos em outros jogos, em especial a final no Pacaembú super lotado e vitória sobre o moleque travesso.

Ainda em 2000, vimos o tricolor ser campeão paulista sobre o Santos em dois jogos no Morumbi. Aliás, foi o Barba que me apresentou ao Monumental.

Foram dezenas de jogos que fomos juntos. A maioria no Morumbi, mas fomos até o Canindé e Vila Belmiro.

Em função do problema de visão, fazia tempo que ele não ia ao Morumbi (antes ele ia em praticamente todas as partidas), hoje foi meu dia de retribuir um pouquinho das alegrias que ele me proporcionou. O vídeo é um pequeno registro desse reencontro com o Morumbi.

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morumbi-publico-paganteNo ano passado, o São Paulo FC adotou estratégia polêmica para garantir público em seus jogos e desta forma contar com o apoio da torcida para afastar o fantasma do rebaixamento que rondava as redondezas do Morumbi: baixou os preços dos ingressos de arquibancada para R$ 10 (sócio torcedores chegaram a pagar até R$ 2 em alguns setores).

Dos 19 jogos como mandante no Campeonato Brasileiro de 2013, treze foram objeto de promoção, e os números são esclarecedores. Nas seis primeiras partidas (sem promoção), a média de público foi de 8.553 torcedores, para uma renda média de R$ 228 mil, onde cada ingresso custou em média, R$ 26.

partidas-2013-sem-promocao

Partidas do São Paulo FC no Campeonato Brasileiro 2013 antes da promoção nos preços dos ingressos.

Nos outros treze jogos, já com a promoção em vigor, foram, em média, 29.836 torcedores; renda de R$ 344 mil; e R$ 11 cada ingresso.

Partidas do Campeonato Brasileiro 2013 com promoção nos preços dos ingressos.

Partidas do São Paulo FC no Campeonato Brasileiro 2013 durante a promoção nos preços dos ingressos.

Como se pode observar a estratégia foi muito vitoriosa, além de escapar da degola (ficou na 9ª posição), o clube jogou com casa cheia, com uma presença de público mais de 3,5 vezes maior, com uma renda 51% mais ampla, com o bilhete custando apenas 43% do valor do período anterior a promoção.

O que se observou em 2013, foram as famílias de volta ao estádio, o que pelo preço anterior dos ingressos era impeditivo – uma família composta de um casal e dois filhos, gastaria mais de R$ 100 para ir a uma partida, o que depois da promoção passou a custar menos de R$ 50. Vale lembrar também, que além da fidelização dos torcedores, em particular das crianças (não há comparação entre a emoção de se acompanhar uma partida no estádio e assisti-la pela TV), você também gera uma receita extra com consumo dentro do estádio.

Se em termos de arrecadação total (R$ 5,85 milhões) o São Paulo FC teve desempenho mediano, ficando em 11º do ranking, poderia ter sido ainda pior caso não houvesse a promoção.

 

Ingresso barato como política permanente

Com a política de ingressos baratos mantida em 2014, o que se verifica é que a arrecadação melhorou em relação a 2013. Em seis partidas como mandante (quatro no Morumbi, uma na Arena Barueri e outra no Pacaembu), foram arrecadados R$ 2,76 milhões, média de R$ 460 mil por partida, a quarta melhor receita do Brasileirão 2014.

Em termos de público, a venda de ingressos baratos também tem se mostrado positiva, os jogos do São Paulo FC tem recebido em média mais de 27 mil torcedores, com o preço médio do bilhete à R$ 16, o terceiro mais barato da competição.

Partidas do Campeonato Brasileiro 2014 com promoção nos preços dos ingressos.

Partidas do São Paulo FC no Campeonato Brasileiro 2014 com promoção nos preços dos ingressos.

Se por um lado a promoção de ingressos baratos começou pela necessidade de garantir maior presença da torcida, em função da luta contra o rebaixamento, por outro, os seus bons resultados parecem tê-la tornado ação permanente, o que deve fazer do São Paulo FC, ao final do Brasileirão de 2014, o campeão das arquibancadas, tendo em vista os últimos números e a tendência de crescimento ao se aproximar de partidas decisivas.

Se os são paulinos apostam em ingresso barato para ter casa cheia, não é o que fazem outros clubes, em especial aqueles que estão jogando nas novas arenas inauguradas para a Copa do Mundo.

Aproveitando-se do interesse de seus torcedores de conhecerem o Itaquerão, o Corinthians elevou os preços dos ingressos (quem não for sócio torcedor tem de pagar entre R$ 180 e R$ 400). Das três partidas que disputou na nova arena, o preço médio do bilhete foi de R$ 77. Gerando uma renda fantástica de R$ 8,2 milhões; pois as partidas receberam bons públicos, 35 mil torcedores em média.

Partidas do Corinthians no Itaquerão pelo Campeonato Brasileiro 2014.

Partidas do Corinthians no Itaquerão pelo Campeonato Brasileiro 2014.

O fator Itaquerão parece ser determinante no número de presentes aos jogos, nos outros três que o Corinthians fez como mandante, houve em média 22 mil torcedores presentes.

Até quando a novidade da casa nova empolgará a torcida corinthiana a pagar ingressos com preços no padrão Copa? Só o decorrer do campenato dirá.

 

Você frequenta estádio? Qual sua opinião sobre os preços dos ingressos?

 

Fonte: As informações sobre público, renda e valores dos ingressos são do Footstats (http://www.footstats.net/)

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O novo presidente do São Paulo FC, deu uma das mais preconceituosas declarações dos últimos tempos. Declaração essa que não serve aos dias atuais de time popular (assim como não cabe na nossa história), como bem demonstra o texto do companheiro e amigo, Márcio Funcia, com quem tive a feliz oportunidade de ver o Tricolor ser pela quinta ou sexta vez campeão brasileiro. Senhor Aidar, não em nosso nome!

 

Não senhor Aidar

Ganamos, perdimos, igual nos divertimos.

Eduardo Galeano

A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.

A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.

 

Antes de começar, adianto: sou são-paulino, desde que meu pai, único tricolor de uma família de espanhóis corintianos, levou-me pela primeira vez ao Morumbi, na ingenuidade de meus sete anos, para ver aquele time que guardei para sempre na memória, o timaço de Forlán, Dias, Pedro Rocha, Gerson e Toninho Guerreiro. Estádio lotado, as três cores vibrando em meus olhos, os gols, a festa da torcida, marcaram-me como uma tatuagem, definitivamente.

Ao longo dos anos, aprendi a amar o clube, como amo a literatura, o cinema, algumas mulheres, minha filha, minhas cadelas. Vi in loco algumas das partidas mais sensacionais de todos os tempos (ainda vejo o gol de Careca contra o Guarani em 1986, no apagar das luzes, que nos levou aos penaltys e ao título brasileiro) goleadas espetaculares (como um 6×2 contra o Palmeiras, em 1981), mas também sofri e chorei, como qualquer torcedor apaixonado depois de cada derrota.

Vibrei depois com Serginho Chulapa (maior artilheiro de nossa história); Muricy Ramalho (ídolo como jogador e treinador); Waldir Peres; Zé Sérgio (Felipão diria que o menino “tinha alegria nos pés”); Chicão (nosso primeiro “deus da raça”); o “monstro” Dario Pereyra; Pitta, Silas, Muller e Careca (que time aquele!); o meu maior ídolo como jogador, Raí; Toninho Cerezo (obrigado, principalmente pela simplicidade); Mestre Telê, o maior técnico que vi nesta trajetória de amante do futebol; Lugano (nosso segundo “deus da raça); o grande Mineiro e, por último, Rogério Ceni, que apesar de posições políticas muito distintas das minhas, fez por merecer seu lugar na galeria de nossos grandes ídolos.

Também aprendi a louvar e respeitar ídolos do passado, principalmente através das deliciosas narrativas de meu pai, que me ensinou que Leônidas só não foi maior que Pelé porque não havia a televisão (seria exagero?); que Zizinho nos encheu de alegria numa fase de vacas magras (e me dizia tonitruante, “este era o ídolo do Pelé”); que Canhoteiro, o “Garrincha” da ponta-esquerda, era mágico e insinuante, nosso anjo torto; que Bellini e Mauro Ramos, capitães da seleção, eram, um vigoroso, sério, o outro um beque clássico, elegante; que tivemos uma linha-média de causar inveja a qualquer clube do mundo, os três que passaram à história como um só, Ruy, Bauer e Noronha; que Sastre, o maestro argentino, comandou a reviravolta do tricolor, tornando-nos enormes, poderosos, como os co-irmãos Corinthians e Palmeiras e que Teixeirinha, foi o jogador mais regular de nossa história, até hoje o terceiro maior artilheiro do tricolor.

Enchi-me de alegria e orgulho com as vitórias e os títulos, os muitos paulistas (numa época que este título era importantíssimo), todos os Brasileiros, Libertadores e Mundiais que pudemos celebrar juntos, meu pai e eu, mas também sofri muito com as derrotas (principalmente aquelas para nosso maior rival, o Corinthians) e os títulos perdidos (especialmente o Brasileiro de 1981, que vi no Morumbi ser ganho por outro tricolor).

Não obstante, mais importante que tudo, foi o São Paulo que me ensinou a gostar do esporte, a apreciar grandes esquadrões, como o Flamengo do Zico; o Atlético do Reinaldo; duas vezes o Palmeiras, o da segunda Academia, de Ademir da Guia e Leivinha, e o de Evair e Edmundo, nos anos 1990; o Inter de Falcão (jogador mais elegante que vi jogar, junto com Zidane) e muitos outros, aqui e lá fora.

Mais que tudo, aprendi que o futebol é festa, que de alguma forma é uma metáfora da vida, ganhamos e perdemos, sorrimos e choramos, somos ao mesmo tempo pobres e ricos, selvagens e doces, egoístas e magnânimos. Que na cancha, somos todos iguais, negros e brancos, ricos e pobres, homens e mulheres, adultos e crianças. Que este momento, como ilustra magistralmente Eduardo Galeano, é único e o resultado do jogo é mera formalidade, o que importa é divertir-se.

Por tudo isso, e para não alongar-me demasiado, é que repudio veementemente as declarações de nosso novo presidente, o senhor Carlos Miguel Aidar. A “cara” do São Paulo Futebol Clube é a de todos estes personagens fantásticos que construíram esta história linda, não a dos “almofadinhas” que o dirigem. Leônidas, Canhoteiro, Zizinho, Bauer, Serginho, Mineiro, Muller, todos negros, pobres, oprimidos por esta mesma gente que diz-se “dona do clube”. Sim senhor Aidar, muitos deles não eram totalmente alfabetizados, nem tinham todos os dentes na boca, mas puseram o nome do São Paulo no panteão dos grandes. Essa suposta sofisticação, senhor Aidar, não se coaduna nem com nosso maior ídolo, curiosamente não um jogador, mas o maior treinador de futebol que já tivemos, Mestre Telê Santana. Homem simples, singelo, direto, quase o oposto destes janotas que se arvoram no direito de ser os grandes personagens do meu tricolor.

Não senhor Aidar, os verdadeiros artífices de nossa história são outros, e creio ser esta a razão de sua infeliz declaração: o senhor sabe disso tão bem quanto eu, e se morde de inveja por não estar nesta galeria. Viva com isso presidente e, por favor, cale a boca e trabalhe, ofereça sua humilde colaboração para que nossa história não se manche com sua verborragia preconceituosa e para que nós, são-paulinos de verdade, possamos seguir deleitando-nos com os grandes, alfabetizados ou ignorantes, banguelas ou dentados.

 

Marcio Otavio Colussi Funcia

Professor de Literatura

 

 

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moedaempeEm 1936, deu Palestra Itália. Em 1937, 38 e 39, deu Corinthians. Em 1940, Palestra Itália. Em 1941, Corinthians. Em 1942, Palmeiras (o antigo Palestra Itália).

O campeonato paulista era assim: jogava-se uma moeda para o alto, se desse cara era Palmeiras campeão, se desse coroa, o Corinthians levava a taça. E o São Paulo FC? Só se a moeda caísse em pé.

E em 1943, há 70 anos, o improvável aconteceu: a moeda caiu em pé! E desde então, ano sim, ano não, o São Paulo é campeão!

Leia a história completa no post “Quando a moeda caiu em pé – Por Dr. Catta-Preta”

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Ontem fui com o Caio no estádio, foi a primeira vez que ele assistiu o jogo no campo, foi bem legal, ele super curioso,

perguntando sobre cada detalhe.

Lembrei ontem da minha primeira vez. Foi com meu amigo e companheiro Barba. Diferente do Caio eu já era meio velhinho, tinha 17 anos e foi na Copa São Paulo de Futebol Jr de 2000.

O jogo? São Paulo FC contra Guarulhos, no campo do Flamengo (não, não era o do Rio – inclusive porque aquele não tem campo – era o de Guarulhos mesmo). Foi 4 x 0 para o tricolor.

Nessa Copa SP, ainda fui com o Barba em outras partidas, a mais emocionante e importante foi a final contra o Moleque Travesso, o tradicioanl Juventus da Mooca.

O jogo foi 2 x 1 de virada com direito ao SPFC desperdiçar pênalti quando ainda perdia o jogo. Mas o sofrimento maior foi entrar no Pacaembu, que certamente teve superlotação naquela manhã, mas que conseguimos graças a malandragem do Barba.

Meu pai teve um papel fundamental em me fazer ser tricolor, e o Barba também foi fundamental, me deu o gosto pelo Estádio. Me lembro, em mais de uma oportunidade, de encontrá-lo no Morumbi, ouvindo o jogo, sim, ouvindo o barulho da torcida, ele teve diabetes e ficou com a visão muito comprometida, por isso ia ao estádio e sentava no túnel que dá na arquibancada e ficava ali ouvindo o jogo.

Tenho certeza que virei um arquibaldo com a melhor pessoa que poderia ser, o Barba me deu o gosto pelo estádio. E você? Conte aí como foi sua primeira vez!

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Belo artigo do meu camarada Ramon Szermeta publicado na edição de novembro da revista Le Monde Diplomatique. Ramon, que tem coordenado a campanha Play-Fair Brasil – “Para que os trabalhadores saiam ganhando”, aponta em seu texto os cuidados que o país deve ter com os principais construtores da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016:  os trabalhadores.

Desrespeito e exploração dos trabalhadores dos jogos

por Ramon Szermeta, no Le Monde Diplomatique

Ilustração: Renato Alarcão

Faltando pouco menos de três anos para o chute inicial que abrirá o maior evento futebolístico do mundo, a sensação que temos no Brasil é que ele já começou. Se não nos gramados, ao menos fora deles. A grande imprensa nos farta diariamente com as mais diferentes manchetes: atraso nas obras dos estádios e de infraestrutura urbana, aeroportos sem capacidade de suportar a demanda, transparência − ou falta dela − na utilização dos recursos, Ricardo Teixeira e seus incontáveis escândalos, queda de braço entre governo federal e Fifa. Ainda tivemos a mais recente crise no Ministério dos Esportes, que culminou com a queda do titular da pasta, coincidentemente ou não, surgida no meio da discussão da Lei Geral da Copa, que tramita no Congresso Nacional sob os atentos olhos da Fifa e de seus parceiros econômicos.
Ainda que intenso, controverso e muitas vezes espetacularizado, raramente encontramos nesse debate discussões sobre ou com os principais personagens que, ao fim e ao cabo, são os últimos responsáveis pela realização da Copa no Brasil ou em qualquer parte do globo: os trabalhadores das diversas categorias profissionais que se esforçarão dia após dia para que tudo realmente aconteça.

Em um ambiente dominado por terceirizações, quarteirizações, pouco respeito às leis trabalhistas e que dificulta a livre organização sindical, cada grito de atraso intensifica o ritmo de produção e aumenta na ponta a pressão sobre o lado mais fraco dessa corda. A Copa será erguida por milhares de trabalhadores que, para cumprir os curtíssimos prazos de obras − que são cobrados diariamente no noticiário nacional −, realizarão jornadas noturnas, duplas e muitas vezes em condições de trabalho fora das regras e leis estabelecidas pela legislação brasileira, como já pudemos ver nas mobilizações que ocorreram este ano em diversas construções de estádios país afora. Em alguns casos, as empresas nem sequer conseguiram atender as exigências básicas, como refeitórios em condições de higiene, assistência médica e alojamentos adequados. O contraste entre o montante gasto com as arenas, incluindo parte de empréstimos públicos, e as condições de trabalho, salário e direitos dos trabalhadores é de afrontar qualquer sentimento patriótico ou de paixão pelo futebol.
A pressão para atender à demanda no transporte aéreo levou o governo, usando o argumento da incapacidade e da falta de agilidade do investimento público, a apresentar proposta de abertura para o capital privado no setor. A ideia é rechaçada pelos trabalhadores aeroportuários, que denunciam a medida como retomada do processo de privatização. Por isso, mantêm mobilização permanente, inclusive com paralisações. O temor é que, além das demissões previstas com a aplicação do novo regime, deteriorem-se as condições de trabalho e aumente o número de acidentes.

Trabalho escravo e infantil
A indústria têxtil vinculada à confecção de material esportivo, e geralmente impactada pela realização dos grandes eventos, também apresenta problemas. Os recentes casos de utilização de mão de obra escrava em confecções de São Paulo elevam o alerta sobre o tipo de incidência negativa que o incremento dessa produção pode ter nas condições de um grande número de trabalhadores brasileiros e imigrantes. No entanto, não há por parte da Fifa e de seus parceiros dessa área nenhum compromisso para manter transparência sobre as origens de seus fornecedores e as condições de trabalho nesse tipo de produção, apesar do histórico de envolvimento desses mesmos atores em casos de confecções de bolas e materiais esportivos provenientes de trabalho escravo e infantil, principalmente na Ásia. Neste ano, sindicatos da Indonésia conseguiram – após divulgação de uma longa investigação sobre as condições de trabalho nas fábricas têxteis do país – forçar acordo histórico com grandes marcas, como Adidas, Nike e Puma, para garantir as condições de liberdade de organização sindical até então desrespeitada, acarretando frequente perseguição aos trabalhadores que buscavam reivindicar seus direitos. Não é por acaso que muitas empresas do setor noBrasil mantêm chantagem incessante para a redução de impostos, ameaçando a transferência de fábricas para a Índia e outros países asiáticos. Enquanto isso, trabalhadores e sindicatos de vestuários e calçados travam uma briga para, ao mesmo tempo, manter a produção no país e garantir condições decentes de trabalho nas confecções brasileiras.
Ucrânia e Polônia, que sediarão a Eurocopa 2012, também estão tendo problemas com os preparativos. Cinco trabalhadores já morreram nas obras dos estádios que estão sendo erguidos para os jogos. Muitas vezes, os empregados são obrigados a assinar contratos que os responsabilizam por suas próprias condições de segurança, e a perseguição àqueles que buscam se organizar é constante, não sendo respeitado o direito à greve e a outras manifestações.
É sintomático que, das nove câmaras temáticas criadas pelo governo federal para acompanhar o desenvolvimento da Copa do Mundo nos estados (entre elas Segurança, Sustentabilidade, Turismo e Saúde), nenhuma inclua centralmente o tema do trabalho, ainda que ele se faça presente em todo o esforço empreendido para garantir a realização do evento e essa seja uma reivindicação do movimento sindical brasileiro. Não há, ainda, nenhuma mesa permanente de diálogo entre sindicatos, governos e o comitê organizador da Copa e das Olímpiadas.
Em encontro recente com a presidente Dilma Rousseff, a secretária-geral da Confederação Sindical Internacional, Sharaw Barrow, em conjunto com a Central Sindical das Américas (CSA) e centrais sindicais brasileiras − CUT, Força Sindical e UGT −, entregou ao governo brasileiro um documento chamando a atenção para os seguintes temas: 1) garantia de diálogo social entre trabalhadores, governo e organizadores (Fifa e Comitê Olímpico Internacional) para discutir a preparação e os impactos dos eventos esportivos; 2) que os recursos provenientes de bancos públicos, como o BNDES, tenham cláusulas que vinculem a liberação de dinheiro em respeito aos direitos trabalhistas; e 3) respeito às leis trabalhistas em todos os ramos de produção e serviços envolvidos na realização dos eventos.

Direitos e deveres
Enquanto o governo brasileiro se compromete, como prevê a Lei Geral da Copa, em resguardar os interesses comerciais da Fifa e de seus parceiros, não há previsão de nenhuma obrigação da entidade máxima do futebol e de seus sócios com cláusulas sociais ou códigos de conduta que delimitem a atuação da entidade no país. Na prática, é um contrato em que um lado carrega apenas deveres, e o outro, apenas direitos. Isso porque o mercado dos jogos esportivos, apesar do cenário de instabilidade no centro do mundo, mantém a força econômica e consequentemente o poder de atração e pressão dos cartolas internacionais sobre os governos, atuando como verdadeiros cães de guarda das transnacionais.
Particularmente, a Copa se direcionou no último período para áreas do globo mais afastadas do epicentro da crise mundial: Brasil 2014, Rússia 2018, Catar 2022. Apesar de distante, o evento já começa também a alterar leis por lá e a agitar os setores que lucrarão com os eventos nesses países. A Lei Geral da Copa já foi praticamente selada na Rússia, atendendo quase que na íntegra as exigências da Fifa. O Catar é um país onde mal existe organização sindical e boa parte da mão de obra concentrada na construção civil é composta de imigrantes indianos e paquistaneses.
Além dos já conhecidos parceiros da Fifa − como Adidas, McDonald’s, Nike, Budweiser, Sony, Oi, Editora Abril, entre outros –, por onde passa, a entidade presidida por Joseph Blatter carrega um conjunto de empresas que, apesar de não serem conhecidas pelo grande público, não deixam de ganhar menos por isso. Um bom exemplo são as companhias de engenharia alemãs. Especializadas nas construções de estádios, algumas particularmente em suas estruturas e coberturas complexas, elas têm acompanhado fielmente as últimas copas do mundo por onde aportam. Apenas a Schlaich Bergermann und Partners, de Stuttgart, entre projetos de estrutura e cobertura, é responsável por cinco estádios brasileiros escalados para o Mundial de 2014. Depois de passar por estádios da Copa alemã, da África do Sul e da Eurocopa de 2012, a empresa especialista em estruturas tensionadas também deixará sua marca e levará uma parte dos investimentos em estádios do país.
O desafio dos movimentos sociais brasileiros será construir uma atuação comum e um conjunto de exigências aos organizadores e governos que não permitam transformar a Copa do Mundo e as Olímpiadas apenas em arenas de negócios para empresas estrangeiras e nacionais potencializarem seus lucros. A Lei Geral da Copa ainda passará por processos de audiências públicas, e a pressão para limitar os excessos a favor da Fifa deve ser intensificada. Ainda há tempo de somar as diversas mobilizações e reivindicações que giram em torno dos eventos. A exigência por respeito às condições dignas de trabalho e à soberania do país pode somar trabalhadores da construção civil, aeroportuários, comerciários, trabalhadores do turismo e vendedores ambulantes − estes últimos ameaçados pelas zonas de exclusão para comércio destinado exclusivamente aos “parceiros” oficiais da Fifa. A conferência nacional de trabalho decente que acontecerá no próximo ano também será um espaço para avançar nessa pauta. Além desses grupos, há movimentos populares que vêm denunciando as remoções abusivas de moradores para as obras, sem diálogo e sem indenização justa; os idosos, estudantes e professores que exigem mais que meia-entrada, mas também respeito às leis brasileiras; assim como os movimentos de mulheres que já estão chamando a atenção para evitarmos o famigerado turismo sexual no período dos jogos.
Todas essas pautas ainda podem se articular com o objetivo de exigir um código de conduta para a Fifa e seus parceiros e cobrar do governo brasileiro o diálogo e a defesa dos interesses nacionais. A unificação dessas lutas é que irá garantir a realização de uma Copa que beneficie realmente o país e que deixe um legado social à altura dos investimentos que estão sendo feitos, respeitando os trabalhadores e o povo que tanto ama o futebol. Ainda estamos no meio do jogo. E queremos que ele seja limpo.
Ramon Szermeta é Coordenador da Campanha Play-Fair Brasil – “Para que os trabalhadores saiam ganhando”

Campanha Play-Fair
Play-Fair é uma campanha mundial coordenada por federações sindicais internacionais e ONGs como a Clean Clothes Campaign (Campanha Roupas Limpas). Ela se iniciou na véspera dos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004 e constituiu uma grande mobilização contra as confecções que exploravam a mão de obra barata, infantil e escrava.

Desde então, vem organizando ações em torno dos diversos eventos esportivos, incluindo os Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, a Copa do Mundo na África do Sul em 2010, os Jogos Olímpicos de 2012 em Londres e a Eurocopa na Ucrânia e Polônia também em 2012.

Com a realização dos dois maiores eventos – Copa e Olimpíadas –, ela também atuará no Brasil e com a participação da Confederação Sindical das Américas (CSA e seus afiliados: CUT, UGT e Força Sindical), da Internacional dos Trabalhadores da Construção e Madeira (ICM) e com o apoio do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Seu objetivo é lutar por condições decentes de trabalho nos diversos ramos de atividades envolvidos nos grandes eventos esportivos.

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Há pouco mais de ano, quando abri o blog, o primeiro post foi “De que nos serve este Campeonato Paulista?”, onde apresentei a opinião de que o campeonato estadual era demasiadamente longo e chato. Continuo pensando isso e defendendo a idéia de que o Paulista deve ser uma espécie de pré-temporada que ocupe no máximo 10 datas no calendário.

Para reforçar minha opinião, divulgo abaixo artigo de Paulo Vinícius Coelho publicado na Folha de S. Paulo deste domingo, no qual ele comenta a vexatória média de público do campeonato, que em ao menos 25% dos jogos tem público inferior ao campeonato de futebol de várzea.

PS.: Neste ano, para mim como tricolor, apenas três destaques: 1) Lucas se firmou e é até agora a principal revelação no futebol brasileiro em 2011; 2) O jejum diante do Corinthians acabou; e 3) Rogério Ceni fez 100 gols (no caso o da vitória sobre o Corinthians).

Pobre Paulista!

A cada quatro jogos, um tem público inferior ao da Copa Kaiser, torneio de várzea do Estado

DEPENDENDO DA combinação de resultados da rodada de hoje, o domingo que vem pode servir, em São Paulo, só para definir o rebaixamento. Há seis rodadas, não há movimento entre os oito primeiros colocados, os que se classificam para as quartas de final do Paulistão. Uma mistura neste final de semana de vitórias de Paulista, Corinthians e Santos determina os oitos finalistas, que só entrarão em campo na semana que vem para cumprir tabela.
No início do campeonato, questionado sobre a primeira fase modorrenta, o presidente da federação, Marco Polo Del Nero, argumentou: “A mudança da fórmula, que deixa de premiar quatro finalistas e oferece oito vagas nas finais, serve para movimentar mais a tabela de classificação. Haverá disputa dos 12 primeiros para se classificar e dos oito últimos para fugir do rebaixamento”.
Marco Polo errou. Seu Paulistão é um fracasso de público e de interesse. A média de espectadores por partida é de 4.957 pessoas e cai ano após ano. Foram 6.229 em 2009, 5.181 em 2010.
Pior, dos 168 jogos computados -o Santo André jogou duas vezes com portões fechados- 22% não somaram mil pagantes. A cada quatro partidas, uma tem público inferior ao da Copa Kaiser, principal competição de futebol de várzea do Estado.
Marco Polo argumenta que o Paulista é o Estadual com o melhor contrato de TV. Ainda é. Há três anos, a federação podia dizer que o Estado tinha a hegemonia do futebol brasileiro. Flamengo e Fluminense venceram os dois últimos Brasileiros.
Mas o interesse cai semana a semana. Dos últimos seis domingos, apenas dois tiveram clássicos. A segunda-feira depois do gol 100 de Rogério produziu, sim, comentários acalorados nas ruas, assim como a vitória do Palmeiras sobre o Santos, semana passada. Certamente será assim também se um grande cair nas quartas de final e se houver clássicos nas semifinais e na decisão.
Mas um domingo como hoje, com Corinthians x São Caetano, Noroeste x São Paulo e Americana x Santos, faz com que as segundas-feiras produzam intermináveis discussões sobre… o clima!

OBRIGADO!
Nos últimos dois anos e meio, tive a honra de escrever na Folha. Entendi na prática o que cada linha aqui escrita produz na vida do país. Agradeço aos leitores e à direção do jornal pela felicidade que me produziram neste período, que se encerra neste domingo.

Paulo Vinícius Coelho – Folha de S. Paulo 10/04/2011

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