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Archive for the ‘Cultura’ Category

O novo presidente do São Paulo FC, deu uma das mais preconceituosas declarações dos últimos tempos. Declaração essa que não serve aos dias atuais de time popular (assim como não cabe na nossa história), como bem demonstra o texto do companheiro e amigo, Márcio Funcia, com quem tive a feliz oportunidade de ver o Tricolor ser pela quinta ou sexta vez campeão brasileiro. Senhor Aidar, não em nosso nome!

 

Não senhor Aidar

Ganamos, perdimos, igual nos divertimos.

Eduardo Galeano

A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.

A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.

 

Antes de começar, adianto: sou são-paulino, desde que meu pai, único tricolor de uma família de espanhóis corintianos, levou-me pela primeira vez ao Morumbi, na ingenuidade de meus sete anos, para ver aquele time que guardei para sempre na memória, o timaço de Forlán, Dias, Pedro Rocha, Gerson e Toninho Guerreiro. Estádio lotado, as três cores vibrando em meus olhos, os gols, a festa da torcida, marcaram-me como uma tatuagem, definitivamente.

Ao longo dos anos, aprendi a amar o clube, como amo a literatura, o cinema, algumas mulheres, minha filha, minhas cadelas. Vi in loco algumas das partidas mais sensacionais de todos os tempos (ainda vejo o gol de Careca contra o Guarani em 1986, no apagar das luzes, que nos levou aos penaltys e ao título brasileiro) goleadas espetaculares (como um 6×2 contra o Palmeiras, em 1981), mas também sofri e chorei, como qualquer torcedor apaixonado depois de cada derrota.

Vibrei depois com Serginho Chulapa (maior artilheiro de nossa história); Muricy Ramalho (ídolo como jogador e treinador); Waldir Peres; Zé Sérgio (Felipão diria que o menino “tinha alegria nos pés”); Chicão (nosso primeiro “deus da raça”); o “monstro” Dario Pereyra; Pitta, Silas, Muller e Careca (que time aquele!); o meu maior ídolo como jogador, Raí; Toninho Cerezo (obrigado, principalmente pela simplicidade); Mestre Telê, o maior técnico que vi nesta trajetória de amante do futebol; Lugano (nosso segundo “deus da raça); o grande Mineiro e, por último, Rogério Ceni, que apesar de posições políticas muito distintas das minhas, fez por merecer seu lugar na galeria de nossos grandes ídolos.

Também aprendi a louvar e respeitar ídolos do passado, principalmente através das deliciosas narrativas de meu pai, que me ensinou que Leônidas só não foi maior que Pelé porque não havia a televisão (seria exagero?); que Zizinho nos encheu de alegria numa fase de vacas magras (e me dizia tonitruante, “este era o ídolo do Pelé”); que Canhoteiro, o “Garrincha” da ponta-esquerda, era mágico e insinuante, nosso anjo torto; que Bellini e Mauro Ramos, capitães da seleção, eram, um vigoroso, sério, o outro um beque clássico, elegante; que tivemos uma linha-média de causar inveja a qualquer clube do mundo, os três que passaram à história como um só, Ruy, Bauer e Noronha; que Sastre, o maestro argentino, comandou a reviravolta do tricolor, tornando-nos enormes, poderosos, como os co-irmãos Corinthians e Palmeiras e que Teixeirinha, foi o jogador mais regular de nossa história, até hoje o terceiro maior artilheiro do tricolor.

Enchi-me de alegria e orgulho com as vitórias e os títulos, os muitos paulistas (numa época que este título era importantíssimo), todos os Brasileiros, Libertadores e Mundiais que pudemos celebrar juntos, meu pai e eu, mas também sofri muito com as derrotas (principalmente aquelas para nosso maior rival, o Corinthians) e os títulos perdidos (especialmente o Brasileiro de 1981, que vi no Morumbi ser ganho por outro tricolor).

Não obstante, mais importante que tudo, foi o São Paulo que me ensinou a gostar do esporte, a apreciar grandes esquadrões, como o Flamengo do Zico; o Atlético do Reinaldo; duas vezes o Palmeiras, o da segunda Academia, de Ademir da Guia e Leivinha, e o de Evair e Edmundo, nos anos 1990; o Inter de Falcão (jogador mais elegante que vi jogar, junto com Zidane) e muitos outros, aqui e lá fora.

Mais que tudo, aprendi que o futebol é festa, que de alguma forma é uma metáfora da vida, ganhamos e perdemos, sorrimos e choramos, somos ao mesmo tempo pobres e ricos, selvagens e doces, egoístas e magnânimos. Que na cancha, somos todos iguais, negros e brancos, ricos e pobres, homens e mulheres, adultos e crianças. Que este momento, como ilustra magistralmente Eduardo Galeano, é único e o resultado do jogo é mera formalidade, o que importa é divertir-se.

Por tudo isso, e para não alongar-me demasiado, é que repudio veementemente as declarações de nosso novo presidente, o senhor Carlos Miguel Aidar. A “cara” do São Paulo Futebol Clube é a de todos estes personagens fantásticos que construíram esta história linda, não a dos “almofadinhas” que o dirigem. Leônidas, Canhoteiro, Zizinho, Bauer, Serginho, Mineiro, Muller, todos negros, pobres, oprimidos por esta mesma gente que diz-se “dona do clube”. Sim senhor Aidar, muitos deles não eram totalmente alfabetizados, nem tinham todos os dentes na boca, mas puseram o nome do São Paulo no panteão dos grandes. Essa suposta sofisticação, senhor Aidar, não se coaduna nem com nosso maior ídolo, curiosamente não um jogador, mas o maior treinador de futebol que já tivemos, Mestre Telê Santana. Homem simples, singelo, direto, quase o oposto destes janotas que se arvoram no direito de ser os grandes personagens do meu tricolor.

Não senhor Aidar, os verdadeiros artífices de nossa história são outros, e creio ser esta a razão de sua infeliz declaração: o senhor sabe disso tão bem quanto eu, e se morde de inveja por não estar nesta galeria. Viva com isso presidente e, por favor, cale a boca e trabalhe, ofereça sua humilde colaboração para que nossa história não se manche com sua verborragia preconceituosa e para que nós, são-paulinos de verdade, possamos seguir deleitando-nos com os grandes, alfabetizados ou ignorantes, banguelas ou dentados.

 

Marcio Otavio Colussi Funcia

Professor de Literatura

 

 

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Entre os dias 8 a 11 de outubro ocorre na bela capital do Ceará o 2° Festival Latino-americano das Juventudes em Fortaleza. O tema desta segunda edição será “O canto de um novo mundo”.

Na primeira edição, no ano passado, estiveram presentes cerca de 5 mil jovens de todo o país além de representantes de diversos países. O festival é promovido pela prefeitura de Fortaleza, através da Coordenadoria de Juventude e é impulsionado pelo Fórum Nacional de Movimentos e Organizações Juvenis.

As inscrições para o segundo festival já estão abertas e podem ser feitas através do seguinte endereço: http://www.fortaleza.ce.gov.br/festivaldasjuventudes/noticia/as-inscricoes-ja-comecaram/

E aqui, você acompanha toda a mobilização: http://www.fortaleza.ce.gov.br/festivaldasjuventudes/

Veja como foi o primeiro Festival:

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Me disseram que este poema faz lembrar de mim… Acho que tem razão!

Liberdade

Fernando Pessoa

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

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Gerou polêmica e muitos protestos a decisão do Ministério da Cultura de retirar do seu site a licença Creative Commons. Circulou bastante o texto “Ministra da Cultura dá sinais de guerra ao livre conhecimento” de Renato Rovai, no qual além de denunciar o fato, alerta para uma guinada conservadora em relação aos direitos autorais.

Em novo post, Rovai explora mais a fundo o que está em jogo, e acredito que ele tem razão, portanto segue abaixo o texto.

Atualização: Na sequência publico carta do amigo e companheiro Alexandre Linares enviada à ministra Ana Holanda e que ele postou nos comentários.

MinC: O debate é entre o comum e o privado

O texto sobre a decisão do MinC de retirar do seu site a licença Creative Commons e ao mesmo tempo solicitar à Casa Civil o projeto de Direitos Autorais causou polêmica tanto neste blog quanto em outros espaços que o republicaram.

A maior parte dos internautas manifestou preocupação com as medidas. Um setor menor, mas não inexpressivo, preferiu acusar o autor do texto tanto de estar a serviço de interesses imperialistas como de fazer parte de uma “frente” anti Ana de Hollanda.

A acusação de imperialista cultural por defender o licenciamento em Creative Commons é tão tacanha que me permito não respondê-la.

Em relação ao fato de fazer jogo deste ou daquele grupo, registro que participo de debates culturais há algum tempo e por isso conhecia alguns dos principais colaboradores da gestão anterior no ministério.

Mas também conheço e admiro alguns dos que ganharam espaço com Ana de Holanda.

Ou seja, não é essa a questão. Ela é outra, bem outra…

O fato de o Minc deixar de licenciar o seu site em Creative Commons foi um ato político. Uma declaração de que há uma nova postura no ministério em relação ao debate dos direitos autorais.

A nota que o ministério emitiu alegando que só trocou a licença por uma frase em português liberando o conteúdo não dá conta do problema. Em relação a isso, vale a pena ler a matéria da revista Rede em que o professor Ronaldo Lemos , da Fundação Getúlio Vargas, explica as diferenças.

Há outras tantas que poderiam ser listadas. Quem sabe num outro post…

O ponto central que quero discutir nesse novo texto é que a retirada do CC do site do ministério parece indicar que a política nesta área de direitos autorais vai ser modificada. O que muda muita coisa.

Ao que muda então.

No governo Lula, o MinC foi aliado da luta para garantir que os bens culturais pudessem ser acessados por toda a população e trabalhou no sentido de construir pontes para debater novas formas de financiamento para o produtor cultural.

Isso equivale dizer que o Estado fez seu papel republicano e democratizante e não atuou como um despachante de interesses privados ou de corporações.

Quando se fala em mudar o sinal e reforçar a velha lógica dos direitos autorais o que se está sinalizando? Entre outras coisas que o ministério vai trabalhar entendendo o “direito” do artista (de poucos, diga-se de passagem) como mais relevante do que o da difusão da cultura.

Dá pra dizer também, em outras palavras, que a manutenção da indústria cultural importa mais do que a possibilidade do livre conhecimento para todos.

Quando se fala em livre conhecimento, entre outras coisas se quer dizer que se é contra  criminalizar alguém por baixar música da internet ou por fazer uma cópia de um livro na faculdade.

Que se é contra impedir uma banda do interior de executar Tom Jobim porque não recolheu a grana do ECAD.

Que se é contra impedir um grupo de jovens de apresentar um espetáculo de teatro de um autor nacional importante só porque sua família não autorizou.

Ser a favor do livre conhecimento é  lutar para que a maior parte dos produtos culturais esteja disponível na rede e que o maior número de brasileiros tenham acesso a eles a partir de um acesso, se possível, público e gratuito à rede.

Isso quer dizer que o livre acesso ao conhecimento não pode se submeter ao interesse comercial e privado de alguns, mas não significa que os artistas não devam ser remunerados pelo seu trabalho.

Mas significa sim que nem eles (artistas) e nem ninguém podem ser censores da difusão da obra cultural.

O que se espera de um MinC de um governo como o de Dilma é que se ele não vier a se associar a esta luta de forma clara, ao menos seja um instrumento de mediação do confronto entre os que defendem a produção cultural como algo privado. E os que a entendem como bem coletivo.

Para os que a entedem como bem coletivo é  preciso libertar a produção cultural do todo poderoso mercado e impedir que seja tratada tão somente como mercadoria.

Na opinião desses, esse é o um dos papéis fundamentais do MinC e tem, sim, relação com a posição o ministério vai adotar na questão dos direitos autorais.

Este blog espera que a ministra Ana de Hollanda e os novos gestores do ministério estejam abertos para travar de forma republicana e democrática esse debate.

Ele é um debate central e guarda relação com a sociedade que desejamos construir, a do comum ou a do privado.

Não é perfumaria e nem coisa de imperialista. E quem é intelectualmente honesto sabe disso.

PS: A partir do próximo post vou começar a tratar do Fórum Social Mundial. No momento, estou na França. Chego em Senegal no dia 1 de fevereiro. Por ser uma ex-colônia francesa, o FSM do Senegal tem repercutido bastante na sociedade civil daqui.

—–

Carta à Ministra Ana Holanda

Prezada Ministra e demais membros da equipe de atendimento ao cidadão do Ministério da Cultura

Considero como cidadão brasileiro, como eleitor e militante da vitória da companheira Dilma, a decisão de mudança das licenças de uso do Ministério da Cultura um retrocesso inexpliclavel e inaceitável.

Para todos aqueles que dedicaram-se para derrotar o modelo privatista demo-tucano de gerir a estrutura pública é inaceitável o retrocesso nos marcos legais das licença de uso do conteúdo da página na internet do MinC.

No fundo, o que parece é que essa decisão, alheia aos interesses do cidadão, alheia ao interesse do acesso livre a cultura e ao conhecimento, retrocede a uma visão obscurantista nos marcos legais dos conteúdos públicos.

FIca evidente que o retrocesso significa tentar retroceder a roda da história no quesito de ampliação do acesso a cultura e da conhecimento para o cidadão através de políticas públicas eficazes.

A nota pública de Ronaldo Lemos, diretor do CC para o Brasil é muito esclarecedora.

O Ministério da Cultura não pode e nem deve ser um ministério da cultura dos artistas (no caso, de uma parcela da indústria cultural que quer bloquear o acesso e as novas formas democráticas de licenciamento de uso). Deve ser um ministério da cultura para os cidadãos.

É urgente, uma sinalização do Ministério da Cultura frente a essa situação. É preciso recuperar o Criative Commons para todo o conteúdo produzido pelo Ministério da Cultura, seja diretamente, seja através de apoio ou subsídio.

É urgente medidas nesse sentido, antes que a esperança se torne medo. E o medo se torne revolta.

Alexandre Linares
Editor, cientista social e professor

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O hino nacional brasileiro é o cúmulo do elitismo. A construção dos versos, ao inverter o posicionamento de verbos, sujeitos e outros elementos lingüísticos, tornam quase incompreensível a letra.

O primeiro verso (“Ouviram do Ipiranga / as margens plácidas”), deveria ser: “As margens plácidas do Ipiranga ouviram”.

Enfim, ele foi feito para ser incompreensível pela maioria do povo. Portanto, num período de tantas mudanças no Brasil, por que não um novo hino nacional que tenha mais identidade com o nosso país?

Respondo com uma proposta: que o samba-enredo da Império Serrano (também conhecida como “Quilombo do Samba”) campeão de 1964, “Aquarela Brasileira”, de Silas de Oliveira, passe a ser nosso hino nacional!

É a nossa cara, um samba que fala das virtudes do nosso país, inspirado em canção de Ary Barroso (“Aquarela do Brasil”), que também fala da nossa terra.

Abaixo você confere a letra e uma versão interpretada pelo jovem sambista (e meu xará) Dudu Nobre.

 

“Aquarela Brasileira”

Autor(es):

Silas de Oliveira

 

Intérprete:

Nêgo

 

 

Vejam esta maravilha de cenário

É um episódio relicário

Que o artista num sonho genial

Escolheu para este carnaval

E o asfalto como passarela

Será a tela do Brasil em forma de aquarela.

Passeando pelas cercanias do Amazonas

Conheci vastos seringais

No Pará, a ilha de Marajó

E a velha cabana do Timbó

Caminhando ainda um pouco mais

Deparei com lindos coqueirais

Estava no Ceará, terra de Irapuã

De Iracema e Tupã

 

Fiquei radiante de alegria

Quando cheguei na Bahia

Bahia de Castro Alves

Do acarajé

Das noites de magia do candomblé

Depois de atravessar as matas do Ipu

Assisti em Pernambuco à festa

Do frevo e do maracatu

Brasília tem o seu destaque

Na arte, na beleza e arquitetura

Feitiço de garoa pela serra

São Paulo engrandece a nossa terra

Do Leste por todo o Centro-este

Tudo é belo e tem lindo matiz

O Rio dos sambas e batucadas

De malandros e mulatas

De requebros febris

Brasil, essas nossas verdes matas

Cachoeiras e cascatas

De colorido sutil

E este lindo céu azul de anil

Emolduram, aquarelam o meu Brasil

 

Lá, lá, lá, lá, iá…

Lá, lá, lá, lá, iá…

 

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Estou de acordo com este jeito de ver o mundo…

 

Turbilhão

Composição: Toquinho / Mutinho

 

Venha se perder nesse turbilhão.
Não se esqueça de fazer
Tudo o que pedir esse seu coração.

Tem muita gente que só vive pra pensar;
Existe aquele que não pensa pra viver.
Eu, por exemplo, na paixão,
Mesmo que tenha que sofrer,
Eu abro o jogo e o coração
E deixo o meu barco correr.

Tem muita gente que não quer se complicar;
Existe aquele que não perde a sua fé.
Eu, por exemplo, meu amigo,
Pelo amor de uma mulher,
Eu viro a cara pro perigo
E seja lá o que Deus quiser.

 

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Reproduzo abaixo o artigo do amigo e companheiro Bruno Elias. Com grande sensibilidade, Bruno traça como o futebol faz parte da sua vida, de como ele é elemento constitutivo da cultura do nosso povo e conclui com um chamado à desmercantilização da nossa paixão. Salvo uma ou outra opinião, como por exemplo em relação aos argentinos e a uma defesa envergonhada do Dunga, compartilho das ideias apresentadas. Além do mais, o texto está muito bem escrito. Vale a leitura!

 

Que venha a próxima Copa

 Por Bruno Elias

Arrisco a me incluir entre os brasileiros apaixonados pelo futebol. Não dos fanáticos, que começam a ler o jornal pelo caderno de esportes ou que trocam qualquer compromisso pela transmissão do jogo de domingo, mas dos que ainda se surpreendem com a força desse esporte manejado por pés (!) ao assistir eventos como a Copa do Mundo na África.

Quando guri, estava entre os que estropiava os dedos em terrenos baldios atrás de “dentes de leite” e que, arriscando alguns chutes e passes em pequenos torneios, via nas diferentes chuteiras dos meninos essa capacidade às vezes silenciosa do futebol em diluir e ao mesmo tempo realçar as diferenças sociais entre os nossos.   

Em minha memória, entre recordações desorganizadas, a vitoriosa Copa de 1994 se destaca. Para alguns, era a volta por cima, vinte e quatro anos depois do tricampeonato, da seleção brasileira ao seu suposto lugar de direito depois de frustradas tentativas, como a da bela seleção dirigida por Telê Santana em 1982. Para outros, aquela comoção e envolvimento era algo novo e encantador, renovando em muitas infâncias o acalentado sonho de ser jogador de futebol ou a paixão pelo esporte divulgado no Brasil por Charles Miller. Daquele Tetra, guardaria mais lembranças do que dos três campeonatos seguintes, já que Ronaldos e Rivaldos seriam incapazes de renovar a empolgação de outrora. Poderia recordar a escalação da Copa nos EUA, mas dificilmente o faria com o mesmo nível de detalhe em relação à 1998, 2002 e 2006, seleção do penta incluída.

Meio desligado com o que acontecia no mundo da bola, cheguei a esta Copa de 2010 com a mesma conversa fiada de muitos de que “a Copa tá desanimada” e de que não ia me “engajar” em acompanhá-la. A propósito, engajar é um termo bem adequado à relação de muitos brasileiros com o futebol. Brigamos, debatemos, choramos, sorrimos, levantamos dados, enfim, dedicamos uma parte importante de nosso tempo e atenção a um esporte que é compreensivelmente chamado de paixão nacional. Porque em Pindorama é assim: qualquer um se arrisca a palpitar sobre futebol. Não precisa entender, saber como são marcados os impedimentos ou quantos jogadores podem ser substituídos a cada jogo.  Falar de futebol é admitido a qualquer um (hábito democrático que não deveria anistiar as banalidades e o lugar comum dos “comentaristas profissionais”, aceitos sem muita contestação).

Nesta Copa, não demorou muito para a realidade contestar o desânimo anunciado. Em um piscar de olhos surgiram carros pintados, bandeiras nas janelas e camisas da seleção canarinho vendidas aos montes nas ruas. Para alguns, inclusive, a Copa começaria antes, com o anúncio da convocação feita por Dunga para o mundial. As críticas, é claro, foram centradas na ausência de atletas que na época estavam jogando bem, a exemplo de Neymar, Ganso, entre outros. Firula, a meu ver, um pouco exagerada porque mesmo com essas frustrações pontuais e a ênfase defensiva do nosso time, deveríamos reconhecer que não estamos mais tão bem servidos de alternativas como antes.

A seleção dos “comportados” de Dunga tampouco era uma seleção ruim. Na verdade, tinha a cara do seu treinador, ex-volante e técnico vitorioso, que não joga para a torcida, mas dispunha de um currículo respeitável de títulos e vitórias recentes. Mesmo ignorando a tradição do nosso jogo bonito, o fato é que dentro de um quadro de mediocridade quase generalizada, nossa seleção era até capaz de ganhar esta Copa. Um sinal revelador desses novos tempos, em que o melhor jogador do Brasil foi um zagueiro e não um atacante. Grande Lúcio!

Talvez seja por este realismo que, mesmo não estando entre os maiores admiradores do técnico brasileiro, não me incluí na frente anti-Dunga, que ia desde os santuaristas do “futebol arte” até setores expressivos da grande mídia, como a Rede Globo.  Só não imaginava que este conflito provocaria alguns dos melhores momentos da Copa, como o sonoro e global (literalmente) “Cala a Boca Galvão” e as revelações trazidas à tona sobre os bastidores da cobertura jornalística do campeonato.

A briga de Dunga com a Globo, sobretudo no que toca a sua resistência em dar a tradicional e, registre-se, negociada exclusividade à emissora carioca deu muito pano pra manga. Barrada na porta da concentração, uma irritadiça Fátima Bernardes receberia tratamento bem diferente daquele dado em outras Copas, quando sua presença constante dentro do ônibus da seleção e nas dependências dos alojamentos dos jogadores era parte de um lucrativo jogo combinado com o presidente CBF, Ricardo Teixeira.

A estocada de Dunga em um dos repórteres da emissora numa coletiva de imprensa e o pito ao treinador tentado pelo Fantástico seriam respondidos por milhares de internautas com mais um “cala boca” virtual (agora ao apresentador Tadeu Schmidt, que tomou as dores da empresa no horário nobre de domingo) e o lançamento, no dia seguinte, de uma campanha de boicote às transmissões do maior grupo de comunicação do país. Essa mobilização espontânea de vários torcedores pode até não ter gerado perdas substanciais de audiência, mas o #diasemglobo provocou um debate importante sobre a decadência de uma emissora que não mede esforços para impor seus interesses econômicos acima de uma cobertura jornalística plural e de qualidade.

E assim continuaria, acompanhando pela tela de outras emissoras e pela internet, os momentos finais da primeira Copa realizada em solo africano. África, inclusive, da qual falamos pouco durante essas semanas, como se fosse possível esconder pelos milhões em patrocínios e os belos estádios que receberam o Mundial, as mazelas sociais que foram historicamente impostas aos povos deste continente irmão.   

Com a precoce eliminação do Brasil, ainda torceria sem sucesso para Gana, Argentina, Paraguai e a “Celeste” uruguaia. Especialmente por torcer pelos argentinos, ouviria muitas piadas e contestações. Mas que culpa eu tenho por não concordar com esse preconceito ridículo que é estimulado pelos meios de comunicação e extrapola a razoabilidade de uma rivalidade esportiva, não raro flertando com preconceitos dos mais reacionários contra nossos vizinhos?

Tanto menos teria por admirar Maradona, não só pelas suas posições progressistas, como a reiterada solidariedade à Revolução Cubana ou à luta das Mães da Praça de Maio, para ficar em apenas dois exemplos, mas sobretudo pela força moral e espírito de equipe que o tornava quase um 12º jogador da seleção portenha. Dentro de campo, o ex-camisa 10 argentino pode até não ter superado Pelé ou mesmo nosso Garrincha, mas hoje, enquanto um anódino Edison Arantes faz comercial de qualquer coisa que aparece, “dom Diego” tem ajudado a retomar as melhores tradições de um futebol ousado, ofensivo e com muitos gols (ainda que insuficiente para resistir ao trator alemão nas quartas de final).

No fim, para quem tinha expectativa de ver uma mini-edição da “Copa América” ou times africanos jogando bem como nos mundiais sub-20 e Olimpíadas, ficou a frustração de ver uma final européia entre Holanda e Espanha, vencida por merecimento por esta última. E foi no vácuo de um futebol pouco vistoso que outros personagens acabaram roubando a cena, seja a serelepe bola Jabulani, a estridente vuvuzela, o pé frio de Mick Jagger ou o vidente polvo Paul.

Mal nos despedimos da África e os olhos dos que gostam do esporte que a Copa celebra de quatro em quatro anos já se voltam para o Brasil, sede do próximo mundial. Profundamente enraizado na cultura popular do povo brasileiro, o futebol deveria ser levado mais a sério pelos que querem fazer do nosso país um lugar mais justo e democrático.

A realização de grandes eventos esportivos como a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 criará novas oportunidades de emprego e simboliza um importante reconhecimento internacional do nosso País. No entanto, a Copa brasileira deve se propor a ser mais que um amontoado de jogos ou um novo filão para o apetite voraz das empreiteiras responsáveis pelas obras de infraestrutura. 

Se queremos disputar uma visão de mundo democrática e popular em amplos setores da população, deveríamos iniciar desde já um grande debate nacional sobre a mercantilização desse esporte e uma luta contundente para diminuir o poder político dos cartolas do futebol brasileiro e mundial. Entre outras coisas, é preciso incidir na disputa ideológica das torcidas, no combate à corrupção empresarial e na defesa de condições de trabalho decente para os jovens atletas, desde as categorias de base. Não há polvo no mundo que consiga prever se teremos, além de um hexacampeonato, mais essa vitória. Afinal, a imprevisibilidade do futebol é uma de suas maiores virtudes e a despeito da sagacidade do molusco alemão, a tal “caixinha de surpresas” sempre arma das suas.

Bruno Elias, coordenador de relações internacionais da JPT

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