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Archive for abril \28\UTC 2014

O novo presidente do São Paulo FC, deu uma das mais preconceituosas declarações dos últimos tempos. Declaração essa que não serve aos dias atuais de time popular (assim como não cabe na nossa história), como bem demonstra o texto do companheiro e amigo, Márcio Funcia, com quem tive a feliz oportunidade de ver o Tricolor ser pela quinta ou sexta vez campeão brasileiro. Senhor Aidar, não em nosso nome!

 

Não senhor Aidar

Ganamos, perdimos, igual nos divertimos.

Eduardo Galeano

A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.

A famosíssima foto de Leônidas. Uma imagem simplesmente eterna captada por Alberto Sartini.

 

Antes de começar, adianto: sou são-paulino, desde que meu pai, único tricolor de uma família de espanhóis corintianos, levou-me pela primeira vez ao Morumbi, na ingenuidade de meus sete anos, para ver aquele time que guardei para sempre na memória, o timaço de Forlán, Dias, Pedro Rocha, Gerson e Toninho Guerreiro. Estádio lotado, as três cores vibrando em meus olhos, os gols, a festa da torcida, marcaram-me como uma tatuagem, definitivamente.

Ao longo dos anos, aprendi a amar o clube, como amo a literatura, o cinema, algumas mulheres, minha filha, minhas cadelas. Vi in loco algumas das partidas mais sensacionais de todos os tempos (ainda vejo o gol de Careca contra o Guarani em 1986, no apagar das luzes, que nos levou aos penaltys e ao título brasileiro) goleadas espetaculares (como um 6×2 contra o Palmeiras, em 1981), mas também sofri e chorei, como qualquer torcedor apaixonado depois de cada derrota.

Vibrei depois com Serginho Chulapa (maior artilheiro de nossa história); Muricy Ramalho (ídolo como jogador e treinador); Waldir Peres; Zé Sérgio (Felipão diria que o menino “tinha alegria nos pés”); Chicão (nosso primeiro “deus da raça”); o “monstro” Dario Pereyra; Pitta, Silas, Muller e Careca (que time aquele!); o meu maior ídolo como jogador, Raí; Toninho Cerezo (obrigado, principalmente pela simplicidade); Mestre Telê, o maior técnico que vi nesta trajetória de amante do futebol; Lugano (nosso segundo “deus da raça); o grande Mineiro e, por último, Rogério Ceni, que apesar de posições políticas muito distintas das minhas, fez por merecer seu lugar na galeria de nossos grandes ídolos.

Também aprendi a louvar e respeitar ídolos do passado, principalmente através das deliciosas narrativas de meu pai, que me ensinou que Leônidas só não foi maior que Pelé porque não havia a televisão (seria exagero?); que Zizinho nos encheu de alegria numa fase de vacas magras (e me dizia tonitruante, “este era o ídolo do Pelé”); que Canhoteiro, o “Garrincha” da ponta-esquerda, era mágico e insinuante, nosso anjo torto; que Bellini e Mauro Ramos, capitães da seleção, eram, um vigoroso, sério, o outro um beque clássico, elegante; que tivemos uma linha-média de causar inveja a qualquer clube do mundo, os três que passaram à história como um só, Ruy, Bauer e Noronha; que Sastre, o maestro argentino, comandou a reviravolta do tricolor, tornando-nos enormes, poderosos, como os co-irmãos Corinthians e Palmeiras e que Teixeirinha, foi o jogador mais regular de nossa história, até hoje o terceiro maior artilheiro do tricolor.

Enchi-me de alegria e orgulho com as vitórias e os títulos, os muitos paulistas (numa época que este título era importantíssimo), todos os Brasileiros, Libertadores e Mundiais que pudemos celebrar juntos, meu pai e eu, mas também sofri muito com as derrotas (principalmente aquelas para nosso maior rival, o Corinthians) e os títulos perdidos (especialmente o Brasileiro de 1981, que vi no Morumbi ser ganho por outro tricolor).

Não obstante, mais importante que tudo, foi o São Paulo que me ensinou a gostar do esporte, a apreciar grandes esquadrões, como o Flamengo do Zico; o Atlético do Reinaldo; duas vezes o Palmeiras, o da segunda Academia, de Ademir da Guia e Leivinha, e o de Evair e Edmundo, nos anos 1990; o Inter de Falcão (jogador mais elegante que vi jogar, junto com Zidane) e muitos outros, aqui e lá fora.

Mais que tudo, aprendi que o futebol é festa, que de alguma forma é uma metáfora da vida, ganhamos e perdemos, sorrimos e choramos, somos ao mesmo tempo pobres e ricos, selvagens e doces, egoístas e magnânimos. Que na cancha, somos todos iguais, negros e brancos, ricos e pobres, homens e mulheres, adultos e crianças. Que este momento, como ilustra magistralmente Eduardo Galeano, é único e o resultado do jogo é mera formalidade, o que importa é divertir-se.

Por tudo isso, e para não alongar-me demasiado, é que repudio veementemente as declarações de nosso novo presidente, o senhor Carlos Miguel Aidar. A “cara” do São Paulo Futebol Clube é a de todos estes personagens fantásticos que construíram esta história linda, não a dos “almofadinhas” que o dirigem. Leônidas, Canhoteiro, Zizinho, Bauer, Serginho, Mineiro, Muller, todos negros, pobres, oprimidos por esta mesma gente que diz-se “dona do clube”. Sim senhor Aidar, muitos deles não eram totalmente alfabetizados, nem tinham todos os dentes na boca, mas puseram o nome do São Paulo no panteão dos grandes. Essa suposta sofisticação, senhor Aidar, não se coaduna nem com nosso maior ídolo, curiosamente não um jogador, mas o maior treinador de futebol que já tivemos, Mestre Telê Santana. Homem simples, singelo, direto, quase o oposto destes janotas que se arvoram no direito de ser os grandes personagens do meu tricolor.

Não senhor Aidar, os verdadeiros artífices de nossa história são outros, e creio ser esta a razão de sua infeliz declaração: o senhor sabe disso tão bem quanto eu, e se morde de inveja por não estar nesta galeria. Viva com isso presidente e, por favor, cale a boca e trabalhe, ofereça sua humilde colaboração para que nossa história não se manche com sua verborragia preconceituosa e para que nós, são-paulinos de verdade, possamos seguir deleitando-nos com os grandes, alfabetizados ou ignorantes, banguelas ou dentados.

 

Marcio Otavio Colussi Funcia

Professor de Literatura

 

 

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