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Archive for maio \31\UTC 2011

A Executiva da Juventude do PT divulgou ontem sua proposta de emenda para ser incorporada no novo estatuto do partido que está em discussão.

A proposta incorpora as principais formulações aprovadas no I Congresso. Ela tira a Juventude, definitivamente, da condição de setorial e/ou secretaria setorial e a define como “instância partidária que tem por objetivo organizar a atuação dos filiados jovens”.

Outro ponto importante é a afirmação da autonomia político-organizativa da Juventude do PT, apontando que a organização será definido por regimento próprio definido em Congresso da JPT.

No entanto, a principal novidade diz respeito à autonomia financeira. No I Congresso da JPT, os jovens da CNB (influenciados por dirigentes que defendiam uma postura de tutela sobre a juventude) acabaram rejeitando a proposta apresentada pelas correntes que compuseram a chapa Socialista de garantia de 3% do fundo partidária para a juventude.

Parece que a experiência de três anos a frente da Secretaria Nacional (parte deles com o “pires na mão”, atrás do tesoureiro para financiar as atividades) fez a JCNB, corretamente, rever sua posição anterior e concordar com a proposta de não 3%, mas sim 5% do fundo partidário para a juventude.

Agora será necessária muita pressão dos jovens petistas sobre os delegados que discutirão a reforma estatutária para garantir autonomia para a Juventude do PT. Nunca é demais lembrar que, na política, assim como na vida, autonomia só existe se vier acompanhada de autonomia financeira.

 

Aqui você confere a íntegra da proposta da Executiva da Juventude do PT

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Participei na última quinta e sexta do seminário internacional “Ciberativismo Político: novas práticas, linguagens e experiências na região” promovido pela Fundação Friedrich Ebert (FES) e pela Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (Flacso), ambas da Argentina.

 

Com convidados do Chile, Colômbia, Uruguai e Brasil o evento discutiu as experiências sobre intervenção na rede de organizações, partidos e campanhas políticas. Falei sobre minha experiência na campanha da Dilma no ano passado, devo agradecer inclusive ao companheiro Marcelo Branco que me repassou material valioso.

 

Me chamou a atenção, dentre outras coisas a exposição de Maria Esperanza Casullo, sobre a blogosfera na Argentina, é curioso ver que, assim como no Brasil, onde pipocam encontros de blogueiros por todo o país, na Argentina tem se desenvolvido uma imprensa de opinião alternativa através de blogs. Casullo mantém o blog La Barbárie e colabora com outro chamado Artepolitica.

 

Gostei muito também da apresentação de Andréa Apolaro, das Redes Frenteamplistas do Uruguai. Apolaro apresentou um vídeo no qual expõe como se deu a construção da maior bandeira da Frente Ampla, durante a campanha no Uruguai. Conhecido como banderazo a mobilização, construída a partir da Internet, percorreu todo o país. Ela contou, entre outras coisas, como foi difícil a relação com a direção do partido, que não compreendia como, onde e porque havia surgido aquela mobilização. O vídeo está abaixo e vale a pena assistir.


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Me disseram que este poema faz lembrar de mim… Acho que tem razão!

Liberdade

Fernando Pessoa

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

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Nos últimos dias bateu uma febre de nostalgia do ano de 2001. Pelo fato de já se ter passado 10 anos, vários companheiros resolveram lembrar a greve das federais, evento que teve a participação ou foi o início da militância de diversas pessoas que protagonizaram outros momentos importantes do movimento juvenil na década dos 2000.

Em meio a esse clima, foi criado um grupo no Facebook para lembrar os 10 anos de outro evento: o Encontro Nacional da JPT. Para quem não lembra (ou não viveu), este encontro elegeu o companheiro Rodrigo Abel para a secretaria nacional da JPT, ele disputou o segundo turno contra meu camarada Luís Cláudio Messa Longo, na época (assim como eu) militante da antiga corrente interna do PT, Força Socialista.

O encontro foi muito disputado, Luís Cláudio foi ao segundo turno com o apoio da DS, superando Adriano Oliveira, da Articulação de Esquerda, que estava em ativa campanha desde o Congresso da UNE, que ocorrera no meio do ano (se não me engano o ENJPT ocorreu no final do segundo semestre).

Já no segundo turno Abel superou Luís Cláudio por uma diferença (se não me engano) de 9 votos – contados às 2 horas da manhã, por Silvinho Pereira (na época, secretário de Organização do PT) em uma praça onde ficava o hotel no qual ocorreu o encontro. Detalhe: o Movimento PT entregou 10 crachás que foram rasgados, viabilizando assim a manutenção do Campo Majoritário à frente da SNJ.

Levaria mais quatro anos para a chamada esquerda do PT dirigir a juventude e impulsionar algumas mudanças, como a realização do I Congresso.

Publico abaixo o texto de Luís Cláudio e de Luis Antônio Papa (que foi naquele processo um dos principais articuladores da intervenção da Força Socialista no encontro) apresentado como tese para os debates.

É interessante notar que o centro da discussão estava no debate sobre concepção de juventude e opressão geracional, isso é decorrência daquele momento de afirmação do movimento juvenil, que passava a ser visto para além do movimento estudantil. Comparado aos textos do Congresso da JPT de 2008, percebemos o deslocamento para a discussão sobre a organização da juventude partidária. Me parece que em partes, ao menos entre os jovens,  aquela geração foi feliz ao afirmar uma política e pode-se hoje fazer a disputa da pauta no partido em outro patamar.

O texto tem outra virtude que é fazer um breve resgate do período de construção da JPT entre os anos de 1991 (primeiro encontro) a 2001. Vale a pena ler!

 

Sobre a Juventude do PT

Por Luis Antônio Papa e Luis Cláudio Messa Longo

 

Introdução

 

O século XX, entre inúmeros aspectos marcantes, foi também o século da juventude. Esta surgiu para não mais sair de moda e de cena. Desde a inovadora experiência do escoteirismo, da juventude comunista da revolução bolchevique, ou da juventude hitlerista, várias das alternativas políticas e ideológicas que se bateram neste período, trataram a juventude como um terreno bastante importante na busca de seus objetivos.

 

A realidade da luta de classes no Brasil, a configuração do sistema político atualmente existente e principalmente, a complexidade e os enormes desafios postos à frente daqueles que pretendem intervir na luta política, orientados pela utopia possível da superação do capitalismo, coloca para nós a necessidade inadiável de ampliarmos a compreensão sobre as características da juventude, sua composição e seu potencial político.

 

Por uma definição de juventude

 

O segmento social que denominamos juventude se caracteriza como uma formação social bastante peculiar, por três fatores, são eles: efemeridade, policlassismo e heterogeneidade.

 

A primeira característica se deve ao fato de possuir a sua determinante em uma temporalidade que necessariamente passará. A condição de “ser jovem” é única e passageira, é ser e estar pleno de potencialidades, como nunca mais voltará a ser, na medida mesma em que ao percorrer sua trajetória de vida, o jovem decide o que é – e o que não é – em cada uma das dimensões do seu ser.

 

A materialização de algumas potencialidades e o abandono/esfriamento de outras, significam definições importantes para o indivíduo enquanto ser social, com as consequências materiais, simbólicas, sociais e políticas daí decorrentes, tais como a escolha da carreira profissional, a composição de uma nova família e as frustrações em relação às potencialidades individuais frustradas.

 

Enfim poderíamos definir que a juventude dura, não só o tempo psicológico que lhe é peculiar, mas além dele, a juventude dura o tempo da construção social do indivíduo. Em outras palavras, na mesma medida em que o jovem afirmar e materializar as identidades e os rumos que traçou para si mesmo – dentro das coletividades onde vive e interage e dentro de um contexto histórico determinado – na mesma medida ele deixará de ser jovem.

 

Após esta passagem, o indivíduo terá a sua identificação social em função da idade, se não totalmente, radicalmente secundarizada em função das identidades sociais, econômicas, existenciais, éticas e políticas que abraçou e/ou rejeitou ao longo da sua vida.

 

A segunda característica advém do fato da juventude ser o segmento social mais amplo e diversificado existente em nossa sociedade, cortando transversalmente a maioria do quadro social existente em um determinado momento.

 

Em outras palavras, a juventude é tanto o patrão, quanto o operário. Profissional liberal, despossuída e abandonada pelo Estado à sua própria sorte. Homossexual, heterossexual e bissexual. Cristã, atéia e mística. Negra, branca, indígena, mestiça e oriental. Mulher e homem. Possui todos os graus de instrução até o superior completo, assim como não teve acesso à escola ou a abandonou. Latifundiária e Sem-Terra. Organizada para a ação política coletiva e alienada. A juventude não possui corporação.

 

Em terceiro e último lugar em função da sua heterogeneidade. É incorreto conceber a juventude como algo homogêneo, mesmo que dentro das identidades ditas acima, de classe, gênero, orientação sexual, afinidade política, religião ou etnia.

 

Cada grupo de jovens que se forma por alguma afinidade comum, dos menores aos maiores, faz da experiência concreta de suas vidas a matéria prima com a qual forjam sua identidade coletiva; os ideais, valores, sentimentos e lealdades, que em boa medida lhes acompanharão pelo resto da vida.

 

Isto porque a capacidade de compartilhar coletivamente diversos momentos da experiência real do indivíduo é um dos mecanismos através dos quais se constroem processos de auto-reconhecimento do ser social em relação ao meio. Dito de outra forma: de maneiras diferentes, mais ou menos politizados, mais ou menos organizados, os diversos grupos de jovens vivem e compartilham experiências entre si.

 

Estas experiências, individuais e coletivas, são compartilhadas e postas à prova segundo o filtro da sociabilidade e/ou valores que cimentam a unidade de cada grupo. Desta maneira são vividas, rejeitadas ou aprovadas, e o grupo permanece, renova-se ou decompõe-se. Em constante movimento as identidades se formam, se modificam e se desfazem.

 

Isto não deve ser visto como uma banalidade por aqueles que não só fazem política, como a fazem buscando construir projetos polarizadores e radicais frente ao mundo. Esta abertura à vivência coletiva que grande parte da juventude vive, é uma porta aberta à política contestatória, de direita ou de esquerda, pois traz em si geralmente à abertura ao novo.

 

Atualizando nossas formulações

Já em 1991, em na nossa tese ao primeiro encontro nacional da JPT, identificávamos (resumidamente) que o ponto de unidade entre os diversos e heterogêneos grupos da juventude era o processo da socialização secundária. O momento de encontro efetivo entre o indivíduo e o Estado, o mercado de trabalho, o desabrochar da fertilidade sexual e tudo o que isto traz, enfim o mundo para além do círculo familiar básico.

 

Isto caracterizaria um momento de conflito interno e com o mundo, que permitiria uma abertura à experimentação e ao questionamento moral, existencial e político. Um momento propício para a disputa de identidades e de projetos políticos radicais, o que dava conta de explicar o porque a juventude esteve presente em diversos momentos intensos da história e porque os revolucionários não deviam furtar-se a disputá-la. Para aquele momento isto nos servia, mas hoje é necessário ir além.

Três questões estão presentes nesta formulação e devem ser repostas em movimento: Transitoriedade X Permanência; Autonomia X Heteronomia; Indivíduo X Coletivo.

 

O contínuo movimento entre as dimensões individual e coletiva, é a chave da compreensão da opressão específica que marca a condição do “ser jovem”.

 

Através do equacionamento – mais ou menos conflituoso – de ambas dimensões do ser humano, se dá o processo de socialização do indivíduo, que não pára no mero choque descrito na formulação de 1991, mas que continua se dando, e pode ser interpretado através das oposições de tempo e poder acima mencionadas.

O momento do choque inicial da socialização secundária só é possível pela existência de um dado novo: o indivíduo é chamado a tomar decisões por si só em um conjunto de esferas às quais, anteriormente ele não possuía a possibilidade de decidir, além de outras esferas novas que não se colocavam perante ele como um problema. Ou seja, o indivíduo é chamado a tomar algumas decisões, a exercer uma certa Autonomia, ao mesmo tempo em que é colocado frente a questões às quais ele não possui capacidade e/ou direito de decidir, questões que são decididas por outros para ele, de maneira Heterônoma.

Por outro lado, a condição do “ser jovem” é radicalmente marcada pelo tempo. É um período intenso que passará, como outras fases do seu ciclo vital e da sua experiência individual e social. Porém se a condição do “ser jovem” tomado na sua dimensão individual dará lugar à outra condição individual, a categoria social heterogênea da “juventude” permanece, mesmo que compreendida de maneira diferenciada ao longo da história.

Pois bem, o choque da socialização secundária é sucedido por outros momentos mais ou menos intensos de socialização no qual se contrapõem as diversas dimensões em jogo e por outros momentos menos tensos, nos quais estas dimensões estão mais equilibradas. Estes momentos mais intensos da socialização são os rituais de passagem, tais como a perda da virgindade, o vestibular, o primeiro emprego, etc.

Podemos imaginar um processo de socialização no qual os momentos de auto-reconhecimento do indivíduo em si, e com o meio, se realizam também nos diversos rituais de passagem aos quais o jovem é chamado a enfrentar. Estes momentos críticos marcam para si e para os grupos sociais aos quais ele pertence, que ele deixou para traz uma condição anterior, na qual ele era mais subordinado em relação aos outros.

Através das dificuldades inerentes a qualquer ritual de passagem, ele demonstra estar capacitado à galgar novos espaços. Seu prêmio é a entronização em um novo círculo de relações sociais, geralmente hierarquicamente superior, no qual ele possui mais Autonomia em relação a anterior, mais capacidade, portanto mais poder. A Heteronomia continua, mas não da mesma forma nem da mesma intensidade.

Para demonstrar que o indivíduo é apto para este novo círculo, ele deverá, por outro lado abandonar aspirações, visões de mundo, desejos, práticas, além de alguns elementos simbólicos e comportamentais da sua condição anterior.

Ele deverá negar parte da sua condição de jovem, o que é a reafirmação para o grupo todo, de que a condição do jovem é uma condição inferior, fadada a ser superada individualmente. Desta maneira ele é re-socializado em um outro nível de igualdade.

Portanto, ao se completar o processo real da transitoriedade do jovem na sua condição individual, ou seja, depois de alguns momentos de re-socialização, realizasse uma troca, na qual ganha-se Autonomia em troca do abandono de uma condição.

Porém a outra face da moeda, é que esta reafirmação da condição subalterna do “ser jovem” que é abandonada aos poucos pelo indivíduo, é reafirmada, atemporariamente para a juventude, para os jovens enquanto categoria social.

O que é a afirmação da conquista da Autonomia para um indivíduo tomado isoladamente é, ao mesmo tempo, a negação da Autonomia para a sua expressão coletiva e permanente, a juventude.

Isto por que aquela reafirmação eterniza e/ou reafirma simbólica e praticamente: o exercício das diversas maneiras de opressão sobre os jovens; as esferas sociais atuais de poder existentes, ou status quo, reafirmando os pilares de uma cultura política desigual e autoritária na qual a condição humana de uns é mais integral e plena do que a de outros.

Em relação à este processo diversas instituições sociais mantém uma relação semelhante com o jovem, sejam eles Partidos, Sindicatos, Igrejas, Postos de trabalho, Estado ou Família. Por um lado, oferece a socialização/enquadramento, por outro lado apropria-se dele a partir de uma lógica utilitária, visando a sua manutenção e reprodução social.

Frente estas instituições o jovem é mão-de-obra barata e/ou desqualificada e desprovido de maiores conhecimentos técnicos/experiência/autoridade. Ao mesmo tempo ele é instrumento de oxigenação parcial das suas estruturas de funcionamento e de poder, além de servir de manancial de futuros quadros dirigentes para as respectivas instituições. Este último seria seu aspecto mais importante, pois garantiria a permanência da instituição, reproduzindo em suas estruturas hierárquicas internas, a mesma condição de humanidade de segunda categoria da juventude.

Se esta caracterização é correta, a esquerda revolucionária tem um problema. Ao não compreender o jogo de poder ao qual submete o jovem e a juventude, ao reproduzir os esquemas, processos, ritos e discursos de re-socialização do jovem que as outras instituições sociais realizam, a esquerda revolucionária reafirma em si mesma a reprodução daquilo que pretende superar historicamente, que é a desigualdade da condição humana.

Desta forma fere profundamente a sua prática política emancipatória e se impõe um limite, que se revela em maior ou menor grau, quando as esferas de governo e de poder são pautadas e/ou alcançadas. Isto de maneira alguma é uma contradição para as instituições sociais que não se pretendem emancipadoras da condição humana, uma vez que faz parte de seu projeto histórico repor criativamente os diversos processos de desigualdade entre os seres humanos.

 

Juventude e Socialismo

Cabe, portanto à juventude, uma luta constante pela realização plena da sua Autonomia, hoje e amanhã, em todos os espaços de sua vida social. Somente com a superação da reprodução cotidiana da desigualdade entre os seres humanos, base existencial do modo capitalista de produção, abrem-se as condições para a realização plena da sua “utopia particular”: realizar seus processos de socialização individuais sem contudo condenar-se eternamente à uma condição de sub-igualdade enquanto coletivo.

 

Mais do que em qualquer momento pós-queda do muro, a crítica ao capitalismo se avoluma enquanto contestação social de massas. Entretanto o impasse estratégico ainda tolhe os socialistas da capacidade de polarizar globalmente, impedindo que apresentemos hoje, com viabilidade histórica, a superação do atual modo de produção.

 

Para piorar a nossa situação, cresce entre a juventude um amplo descrédito da atuação política organizada coletivamente, seja pela institucionalização burocrática dos partidos de esquerda, seja pela consolidação cada vez mais ampla do apelo à saída individual.

 

Anarquistas por um lado, voluntaristas por outro, além dos adversários tradicionais, disputam espaço na juventude, não só do ponto de vista das tarefas conjunturais e da agenda política: disputam as consciências em movimento dos jovens, as suas experiências e identidades.

Ou disputamos hoje a idéia, as experiências e as práticas da juventude para um projeto socialista, ou perderemos espaço à médio prazo. Esta disputa deve se dar no movimento social organizado, naquele que nós ajudamos a impulsionar e entre nós, nas instituições das quais fazemos parte.

Porém a luta pelo socialismo na juventude possui também e centralmente fundamentos na impossibilidade da manutenção, que dirá ampliação, do atual modelo de consumo das reservas de matérias primas, pelo desequilíbrio ecológico progressivo que ameaçam em longo prazo a própria existência da humanidade.

Outro elemento fundamental é o extermínio da esperança no futuro que o modelo neo-liberal impõe aos jovens trabalhadores do mundo, adicionado pelo fato concreto de que as maiores vítimas da violência, desesperança e abandono resultantes da desconstrução social capitalista de hoje é a juventude.

 

A luta pelo Socialismo e a juventude

 

Se amplos setores da juventude fazem parte do bloco histórico materialmente e ideologicamente interessado na ruptura com o capitalismo, não devemos abandonar à própria sorte os nossos trabalhos políticos na juventude.

 

Devemos construir e aprimorar o nosso trabalho na juventude, enraizando-nos nas mais diversas experiências da juventude, mas principalmente no meio popular, de maneira a que consigamos colocar na agenda política nacional as sua demandas concretas.Disputar e construir a idéia do socialismo entre a juventude, das mais diversas formas através das quais se expresse a condição emancipatória desta luta. Assim sem dúvida, acrescentamos força à construção de uma contra-hegemonia dos trabalhadores em nosso país.

 

Porém para enfrentar concretamente estas tarefas precisaremos pautar o debate de como intervir organizadamente na, junto e com a juventude. Hoje este debate precisa ser retomado entre nós de uma maneira mais completa, com a formulação de métodos alternativos e criativos aos até aqui desenvolvidos pelas esquerdas. Porém esta limitação política de elaboração e de organização, não deve servir de desculpa para a secundarização da prática política organizada na juventude entre nós.

 

Precisamos partir das organizações existentes, dos seres humanos realmente existentes para construirmos novos modelos de organização e uma nova condição humana. Só a partir deste trabalho concreto no hoje e no agora, superaremos politicamente as nossas limitações teóricas e práticas no trabalho de juventude, ao mesmo tempo em que ganhamos legitimidade para construir o futuro. Abandonar os nossos espaços de atuação em favor de algo que ainda não desenvolvemos ou que não elaboramos, é absolutamente temerário.

 
Disputar a JPT

Do ponto de vista do trabalho no setor, a SNJ se encarada fechada em si mesma, deslocada de uma linha de massas, de uma experiência de trabalho real, de um lastro político seria sem dúvida uma ilusão burocrática. Nós da esquerda do PT possuímos tanto ou mais acúmulo político sobre a juventude do que qualquer outro campo do PT; possuímos experiências de trabalho real no setor que são as bases das nossas formulações e oferecem respeitabilidade para as nossas disputas neste setor.

 

Um exemplo foi a experiência vitoriosa de construção da SNJ no início dos anos 90, que é sempre lembrada pela suas marcas de funcionamento democrático e unitário e que trataremos mais adiante.

Mais recentemente uma das experiências mais ousadas de políticas públicas voltadas para atender as demandas da juventude é o Orçamento Participativo da Juventude da Prefeitura de Belém. Idealizado a partir do reconhecimento de que o atendimento destas necessidades deve ser fruto da construção do jovem na política, através da afirmação da condição de protagonista de experiências específicas.

A necessidade de re-elaborarmos constantemente as nossas visões sobre a juventude e de construirmos uma linha de massas para a JPT não são impeditivos da disputa pela sua reconstrução. São pressupostos para ela, pois só assim mobilizamos rapidamente em escala nacional os coletivos mais à esquerda para enfrentar estas lacunas.

A necessidade de prepararmo-nos para redirecionar nosso trabalho para a consolidação na periferia e no meio popular também não se contrapõe a esta disputa, muito pelo contrário, porque através da SNJ teremos uma plataforma de lançamento de políticas em escala nacional, para todos os segmentos da juventude. Sem tergiversações, a SNJ poderá vir-a-ser para nós, um espaço muito útil para a construção e consolidação de uma política socialista nos espaços onde nós atuamos e atuaremos no pós-2002.

Acreditamos, portanto, que apesar de esvaziado do poder de voto na executiva nacional, existem condições reais para a construção de uma política de esquerda a partir da SNJ, voltada para enfrentar algumas das principais necessidades atuais da luta de classes no Brasil.

 

Crise, Resistência e Declínio da JPT, 1991-2001.

A partir de1991 aJPT enfrenta o reflexo da crise na sua principal área de atuação, o ME universitário. A derrota no CONUNE daquele ano foi enfrentada da melhor maneira possível, em um cenário que podemos caracterizar hoje de resistência política, ideológica e organizativa.

 

Até 1993, fim da gestão da Força Socialista à frente da SNJ, os esforços de todas as correntes do PT organizadas na juventude, à exceção de OT e CS que sempre tiveram projetos próprios avessos à unidade, foram concentrados na criação de uma organicidade para a JPT.

 

Formação política, comunicação, seminários de planejamento, realização permanente de fóruns para a discussão política e tomada democrática de decisões, ocupação de espaços no PT, diálogo com intelectuais visando à identificação dos aspectos centrais da condição do jovem, além do esforço na implantação de instâncias de juventude do PT nos estados e principais municípios.

 

Mesmo já em decadência no ME, paralela à consolidação da maioria da UJS na UNE, a JPT manteve a capacidade de tomar iniciativa, como foi o caso em 1993 do MUDE (Movimento UNE Democrática) com sua principal bandeira, as diretas para a UNE, perdurando até hoje. Iniciativa da Articulação como resposta à ofensiva do PCdoB em 1992 com o Fora Collor, e que na nossa leitura  naquela época, contribuiria para enraizar a UNE nas universidades.

 

Estas ações só foram possíveis até então, além do que já foi dito acima, pelo fato de que era consenso entre as forças do PT até 1993, que o partido deveria intervir unificadamente no movimento estudantil. Consenso rompido naquele ano com um veto da Art. à FS no DCE da USP, e depois consolidado em escala nacional pela aliança da UL com o PCdoB no CONUNE de 1997.

 

O esgotamento do método que combinava democracia/ação unitária foi o elemento central do processo de decadência política que perdura até hoje na JPT.

 

Entre outras características e sintomas desta decadência já eram perceptíveis: a crise permanente que envolvia a construção dos fóruns de juventude do PT precarizando a sua política; o esvaziamento de uma política organizativa para a JPT; a redução efetiva das ações da JPT ao ME e a redução progressiva da presença dos petistas nos fóruns e espaços de direção do ME. Qualquer semelhança daquele momento com o atual, não é mera coincidência.

 

As causas da decadência da JPT e do crescimento da UJS foram respectivamente: a decomposição do núcleo dirigente da principal força petista universitária da época, a Art. a falência da experiência da unidade petista, resultando na paralisia, abandono e decadência da SNJ.

 

Posteriormente, a ausência de um pólo organizador minimamente legítimo entre a juventude do PT, teve um efeito desestruturador na política, permitindo o desenvolvimento de traços perniciosos da política tradicional e inviabilizando a contenção do crescimento da UJS.

 

Outro fator importante foi o início da descaracterização do PT, em curso no pós-89, que redundou na paralisia diante o governo Collor –o que pela primeira vez na história colocou o PCdoB à nossa esquerda e teve um impacto agudo entre @s petistas, a começar pela base.

 

Ao contrário do PT e da maioria das suas tendências internas, o PCdoB nunca menosprezou o papel da juventude para a construção do socialismo e para a sua construção partidária. Enquanto o PT, por ironia da história, quando começou a produzir uma linha partidária no setor, foi derrotado no seu segmento mais dinâmico, o universitário; esses companheiros nunca descuidaram da sua construção.

 

Independentemente das críticas que temos, é inegável que a permanência deste partido no ME deve ser analisada a frio, devendo-se a alguns fatores tais como: acompanhamento político dos principais quadros; interface estável entre as estruturas de juventude e os órgãos de direção do partido; investimento material e humano; clareza de objetivos táticos e estratégicos; uma formação política sólida e a preparação moral para a execução de um arsenal de maldades, como bons stalinistas que são.

 

Porém, para além da eficiência gerada pelos fatores organizativos acima descritos, neste período histórico de1992 a1997 algumas maldades planejadas foram fundamentais. A ascensão da UJS foi possível, principalmente, graças a implantação do esquema mafioso administrado pelo consórcio PCdoB/MR8/máfias regionais, de captação de recursos dos estudantes, também conhecido como carteirinhas. Foi a política de massas mais bem sucedida na UNE nos últimos tempos.

 

Secundariamente outro fator relevante para a manutenção da maioria do PCdoB foi, no momento imediatamente posterior à queda de Collor, o impedimento às iniciativas de horizontalização e democratização da estrutura política da UNE, o que inviabilizou a implantação de amplas bases de massa à entidade. Ao contrário das gestões petistas, envolvidas por um sentimento difuso de mudança e democratização, as gestões do PCdoB se encaixam como luvas nas estruturas verticalizadas da UNE.

 

Voltando ao PT, entre 1995 e1999 acrise instalada no interior da JPT adquiriu e/ou aprofundou vários aspectos: burocratização; aparelhismo; passividade ou concordância com a compreensão utilitária da juventude; gangsterismo; esvaziamento, desrespeito e fraudes dos fóruns partidários; submissão aos padrões de luta política impostos pela hegemonia do PCdoB no ME, entre outros.

 

Frente à profunda decadência em sua fileiras, a Unidade na Luta (novo nome da Articulação) dá dois golpes mortais no mito da unidade petista, a unidade com o PCdoB no CONUNE de 1997 –que já foi citado- e a eleição do atual secretário nacional de juventude da maneira como acompanhamos.

 

Frente à esta balanço nós temos dois caminhos:

O primeiro caminho começa geralmente com a busca de interesses de curto prazo; passa pela reafirmação de desconfianças seculares; afunila-se com tentativas de construção unitária, sempre superficiais e pouco embasadas na discussão política; e deságua no impasse que vivemos hoje, onde as vitórias políticas, se resumem a manutenção de espaços políticos no movimento.

 

O segundo caminho deve se iniciar com a reconquista da democracia como método de construção da política; deverá percorrer a trilha das instâncias e fóruns partidários; se guiar por objetivos e horizontes estratégicos, para enfim se consolidar na reconquista da unidade política possível. Este é o caminho que a Juventude da Força Socialista têm a propor ao conjunto da esquerda partidária.

 

Para nós esta è a base possível para enfrentar a tarefa necessária na atual conjuntura para as correntes da JPT. A tarefa da reconstrução é tarefa de todos nós por dois motivos muito simples.

 

  1. Sem a sua reconstrução, a capacidade que nós petistas, temos para disputar o socialismo em meio à juventude fica bastante precarizada, ainda mais que entre nós não proliferam alternativas abstenseístas em relação ao PT.

 

  1. Sem medo de errar, podemos dizer que a tarefa da reconstrução da SNJ cabe aqueles setores que ao longo da história se comprometeram com este método que aqui propomos, democracia/unidade. Repousam na esquerda, os setores que colocam à frente de seus projetos específicos de crescimento, a compreensão da necessidade de reconstruir a JPT. A Unidade na Luta deve reconhecer que sua aposta recente à frente da SNJ foi um fracasso, e dada a violência política com que se caracterizou, não lhe resta autoridade moral no presente momento, para esta tarefa.

 

 

Elementos para um programa para a JPT

  • Luta pelo socialismo ontem e hoje: Contra hegemonia, valores, ideais, condição humana.

 

  • Elementos para uma política voltada para a juventude. A juventude sofre a tragédia social do neoliberalismo. Violência, desesperança (tráfico, modelos e craques) desemprego.

 

A juventude e a disputa política e eleitoral hoje. Contra hegemonia, potencial eleitoral.

 

Tarefas do período

 

  1. 1.   Reconstruir a JPT
  • Funcionamento das instâncias partidárias: Método (ação coletiva, democrática e unitária) e Propostas (Formação, Comunicação, Fóruns estaduais de produção da política do PT para o ME, Organizar as juventudes das Macro-regiões, Plenárias anuais e Reuniões bimestrais do coletivo de Juventude)

 

  • Constituir a JPT para além do ME

 

  • Estabelecer contato permanente com as diversas regiões do estado

 

  • Intervir na vida cotidiana do PT

 

  • Eleições 2002

 

  1. 2.   Lutas anticapitalistas, anti-imperialistas e pela soberania nacional (Combate à ALCA, Plano Colômbia

 

  1. 3.   Campanhas gerais:

 

 

  1. 4.   Colocar na agenda política nacional as demandas da juventude
  • Implementação de políticas públicas voltadas para atender as demandas da juventude: OPJ e Estação Juventude

 

São Paulo, inverno de 2001.

Luís Antônio Papa e Luís Cláudio Messa Longo são ex-militantes da Juventude do PT

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Neste artigo, Carla Bezerra, companheira que me sucedeu na executiva nacional da JPT, e Gabriel Medina, presidente do Conselho Nacional de Juventude, apresentam alguns pontos sobre a participação dos jovens na reforma política.

Há muito defendo que para reencantar a juventude brasileira com a política é necessário realizar uma reforma política que inclua os jovens brasileiros. É essa a perspectiva do artigo dos companheiros. Em particular, destaco a proposta de financiamento para o trabalho dos partidos com jovens, penso que deveria ir mais a fundo até, e a JPT apresentar às demais juventudes partidárias a proposta de regulamentação das mesmas, assim como a experiência que existe na Alemanha.

Há lugar para a Juventude na Reforma Política?

Por Carla Bezerra e Gabriel Medina

A Reforma Política está novamente na agenda do dia, e dentro de um cenário mais favorável para a aprovação de medidas progressistas. Para nós, movimentos sociais e partidos políticos do campo democrático e popular, a defesa dessa reforma tem como sentido ampliar a participação e a democracia.  Alterar o sistema político deve representar também acelerar as mudanças que hoje ocorrem no Brasil. Mais acesso à direitos básicos deve andar casado com mais poder e participação do povo.

Por isso, ela deve ter como diretrizes: ampliar a participação popular por meio de mecanismos diretos e participativos, fortalecer os aspectos ideológicos e programáticos dos partidos políticos, garantir maior presença de setores hoje sub-representados, como mulheres, negros/as e jovens, combater a prevalência do poder econômico, do excessivo personalismo, e do uso legendas de aluguel, hoje tão disseminadas no atual formato de nosso sistema político.

Caminhos e Possibilidades

Os caminhos para que essas mudanças ocorram são vários. No presente, o que tem se desenhado no Congresso é uma alteração mais pontual na nossa legislação eleitoral. O que está em processo de votação agora são as regras voltadas para a eleição de mandatos proporcionais (câmaras e assembléias).

Os efeitos dessas possíveis mudanças, mesmo que não tão amplas quanto defendemos nos movimentos sociais, são de importância fundamental e não devem ser menosprezados. Trata-se de momento inédito de coesão interna no PT, bem como de uma capacidade de articulação e diálogo com diferentes partidos políticos. Dentre as mudanças que há maior consenso, estão o financiamento exclusivamente público de campanha, a fidelidade partidária e o voto em lista preordenada – além do rechaço completo de propostas como “distritão“.

Esses três elementos combinados são fundamentais para os objetivos que mencionamos no início do texto: combater a prevalência do poder econômico, o oportunismo eleitoral e a sub-representação de setores como mulheres, negros e juventude.

Não é possível falarmos em democracia representativa, quando mais da metade da população não está devidamente representada nos espaços do Congresso Nacional. Nesse sentido, para democratizarmos a democracia, a defesa da lista preordenada só faz sentido se combinada ao critério de paridade de gênero. A isso, deve-se acrescer também outros recortes específicos, como de recorte étnico-racial, e a garantia de representação da juventude.

A Juventude na Reforma Política

No Brasil temos uma sub-representação da juventude nos partidos e instituições políticas, um fenômeno que não é restrito a partido A ou B e sim um problema generalizado. Nesse sentido, são necessárias ações políticas complementares para garantir a ampliação da participação dos jovens nesses espaços políticos e a renovação dos quadros políticos, tanto no campo das idéias como no da idade.

As propostas que defendemos para a Reforma Política contribuirão para que setores organizados, possam se expressar nas listas partidárias e sair da invisibilidade. Vale lembrar que hoje vivemos um dos maiores números de jovens na história do Brasil, com uma população de 50 milhões, representando 26% da população brasileira. Os jovens representam 40% do eleitorado, entretanto, representam 3% do Congresso Nacional.

É fundamental que haja um investimento específico dos partidos na sua juventude e na formação de novas lideranças. Assim, defendemos que seja obrigatória a destinação de 5% do fundo partidário para investimentos na organização da respectiva juventude, com o objetivo de formação de novos quadros militantes e lideranças.

Ainda, defendemos que haja um limite de no máximo duas reeleições no mesmo cargo para o exercício parlamentar. Esse tipo de limitação obriga a permanente renovação dos partidos e contribui para o combate à lógica de profissionalização dos cargos políticos, permitindo que novas lideranças possam surgir e se alternar nos espaços de poder.

Por fim, é preciso rever a questão dos limites de idade mínima para concorrer a eleições. Hoje já temos as maioridades civil e penal igualadas em 18 anos, e o direito ao voto inicia-se aos 16. Por que então limitar para 21 ou 35 anos, conforme o cargo, o direito a concorrer às eleições? Propomos que a idade mínima esteja igualada em 18 anos em todos os casos.

Ir para as ruas!

Sabemos que não basta realizar a disputa nos corredores do Congresso, onde os deputados tendem a votar na continuidade das regras que garantiram a sua eleição. É fundamental que os movimentos sociais e partidos políticos do campo democrático e popular estejam organizados em um amplo processo de disputa de valores na sociedade.

A juventude pode cumprir um papel fundamental nessa disputa. Este ano, teremos grandes atividades de organizações juvenis, como o Congresso da UNE, a Plenária nacional da Juventude da CUT, o II Festival das Juventudes em Fortaleza, dentre outros. Ainda, teremos um amplo processo de debate desde os municípios, com a II Conferência Nacional de Juventude. É necessário que em todos esses espaços, haja debates e resoluções e que se organizem campanhas públicas sobre o tema.  Só assim, poderemos garantir uma disputa pela esquerda das mudanças no sistema político brasileiro.

Gabriel Medina é presidente do Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE); e

Carla Bezerra é membro da Executiva Nacional da Juventude do PT

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Os últimos dias foram difíceis para quem costuma acompanhar o noticiário, na sexta tivemos o casamento do príncipe inglês, no domingo a beatificação do antigo Papa e nesta segunda houve o assassinato de Osama Bin Laden. O que houve na verdade foi um bombardeio de informações inúteis e desnecessárias.

Me impressiona como nossa imprensa gosta de espetacularizar tudo e como a sua cobertura é da profundidade de uma poça d’água. O casamento real, mesmo sendo uma pauta questionável, podia ser uma oportunidade para discutir como em pleno século XXI temos países centrais do capitalismo convivendo com a monarquia.

Mas no meio dessa mediocridade surgem bons textos, como do jornalista Robert Fisk, sobre o assassinato de Osama Bin Laden. Fisk, lembra que “nos velhos tempos, Justiça significava o devido processo legal, um tribunal, uma audiência, um defensor, um julgamento”. Ou seja, lembra que o papel da imprensa é informar para que o leitor possa tirar suas conclusões e não ficar batendo palmas com um sensacionalismo que desinforma.

Na contramão, o texto de Fisk vale a pena.

Bin Laden foi traído? Certamente que sim. O Paquistão sabia onde ele estava

Robert Fisk – La Jornada

 

Um dom nada de meia idade, um fracassado político, rebaixado pela história – pelos milhões de árabes que exigem liberdade e democracia no Oriente Médio -, morreu no Paquistão neste domingo. E o mundo enlouqueceu. Nem bem havia nos apresentado uma cópia de sua certidão de nascimento, o presidente estadunidense apareceu no meio da noite para nos oferecer ao vivo um atestado da morte de Osama Bin Laden, abatido em uma cidade batizada em homenagem a um major do exército do velho império britânico. Um só tiro na cabeça, nos dizem. Mas e o vôo secreto do corpo até o Afeganistão e o igualmente secreto sepultamento no mar?

A estranha forma pela qual se livraram do corpo – nada de santuários, por favor – foi quase tão grotesca como o homem e sua perversa organização.
Os estadunidenses estavam embriagados de alegria. David Cameron chamou-o de um enorme passo adiante. A Índia falou em feito vitorioso. Um triunfo retumbante, alardeou o primeiro ministro israelense Netanyahu. Mas, após 3 mil estadunidenses assassinados no 11 de setembro, incontáveis outros no Oriente Médio, cerca de meio milhão de vítimas mortais no Iraque e no Afeganistão e 10 anos empenhados na busca de Bin Laden, oremos para que não tenhamos mais triunfos retumbantes.

Ataques em represália? Talvez ocorram, de pequenos grupos no Ocidente que não têm contato direto com a Al Qaeda. Ninguém duvide que alguém já esteja sonhando com uma brigada do mártir Osama Bin Laden. Talvez no Afeganistão, entre os talibãs. Mas as revoluções de massas dos últimos quatro meses no mundo árabe significam que a Al Qaeda já estava politicamente morta. Bin Laden disse ao mundo – e, de fato, me disse pessoalmente – que queria destruir os regimes pró-ocidentais no mundo árabe, as ditaduras dos Mubaraks e dos Ben Alis. Queria criar um novo califado islâmico. Mas nestes últimos meses, milhões de árabes muçulmanos se levantaram, dispostos ao martírio, mas não pelo Islã e sim por democracia e liberdade. Bin Laden não derrubou os tiranos: foi o povo. E o povo não quer um califa.

Reuni-me três vezes com o homem e só me restou uma pergunta por fazer: o que pensava ao observar como se desenvolviam as revoluções este ano, sob as bandeiras de nações, mais que do islã, cristãos e muçulmanos juntos, pessoas que seus homens da Al Qaeda gostam de arrebentar?

Aos seus olhos, seu êxito foi criar a Al Qaeda, instituição que não tinha carteira de membro. Bastava levantar uma manhã querendo ser da Al Qaeda e já o era. Ele foi o fundador, mas nunca um guerreiro em batalha. Não havia um computador em sua caverna, nem fazia chamadas para que detonassem bombas. Enquanto os ditadores árabes governavam sem que ninguém os enfrentasse, com apoio ocidental, evitavam até onde fosse possível criticar a política de Washington; só Bin Laden o fazia. Os árabes nunca quiseram explodir aviões de altos edifícios, mas admiravam o homem que dizia o que eles queriam dizer. Mas agora, cada vez mais, podem dizê-lo. Não precisam de Bin Laden. Ele se tornou um dom nada.

Falando de cavernas, a desaparição de Bin Laden lança uma luz sombria sobre o Paquistão. Durante meses, o presidente Alí Zardari nos disse que Osama vivia em uma caverna no Afeganistão. E agora descobrimos que ele vivia em uma mansão no Paquistão. Foi traído? Claro que sim. Pelos militares ou pelos serviços de inteligência do Paquistão? É muito provável que pelos dois. O Paquistão sabia onde estava.

Abbottabad não é só o lugar que abriga o colégio militar desse país – a cidade foi fundada pelo major James Abbott, do exército britânico, em 1853 -, como também é o quartel da segunda divisão do corpo do exército do norte. Há apenas um ano, fui atrás de uma entrevista com um dos criminosos mais procurados, o líder do grupo responsável pelos massacres de Bombaim. Encontrei-o na cidade paquistanesa de Lahore, protegido por policiais paquistaneses armados com metralhadoras.

Desde logo, há uma pergunta muito óbvia sem resposta: as forças de segurança do Paquistão não poderiam ter capturado Bin Laden? Por acaso a CIA e os Seals da Marinha dos EUA, ou as forças especiais, ou qualquer que seja a força estadunidense que o tenha morto não tinha os meios para lançar uma rede no tigre. Justiça: foi assim que Barack Obama definiu essa morte. Nos velhos tempos, Justiça significada devido processo legal, um tribunal, uma audiência, um defensor, um julgamento. Como os filhos de Saddam Hussein, Bin Laden foi morto a tiros. Claro, ele jamais quis que o pegassem vivo…e havia sangue em abundância na casa onde morreu.

Mas um tribunal teria preocupado muito mais a outras pessoas do que a Bin Laden. Afinal, depois de tudo o que aconteceu, poderia ter falado de seus contatos com a CIA durante a ocupação soviética do Afeganistão, ou de suas acolhedoras reuniões em Islamabad com o príncipe Turki, chefe da Inteligência da Arábia Saudita. Assim como Saddam Hussein – que foi julgado pelo assassinato de apenas 153 pessoas e não pelos milhares de kurdos vítimas de bombas químicas – foi enforcado antes que tivesse a oportunidade de nos contar sobre os componentes do gás fornecidos pelos EUA, sobre sua amizade com Donald Rumsfeld ou sobre a ajuda militar que recebeu de Washington quando invadiu o Irã, em 1980.

É estranho que Bin Laden não tenha sido o criminoso mais procurado pelos crimes internacionais de lesa humanidade do 11 de setembro de 2001. Ele ganhou seu status do velho oeste por ataques anteriores da Al Qaeda a embaixadas dos EUA na África e ao quartel do exército desse país, em Durban. Sempre estava à espera dos mísseis de cruzeiro…e eu também quando me reuni com ele. Ele esperava a morte antes, nas cavernas de Tora Bora, em 2001, quando seus guarda costas não o deixaram resistir e o obrigaram a cruzar as montanhas a pé até o Paquistão. Seguramente passou algum tempo em Karachi. Estava obcecado com essa cidade: até me deu fotografias de grafites apoiando a sua causa nos muros da antiga capital paquistanesa, e elogiava os imãs locais.

Suas relações com outros muçulmanos eram um mistério. Quando me reuni com ele no Afeganistão, no início ele tinha medo do talibã e não deixou que eu deixasse seu acampamento e fosse para Jalalabad à noite. E me entregou a seus guardas mais próximos da Al Qaeda para que me protegessem na viagem no dia seguinte. Seus seguidores odiavam os muçulmanos xiitas, considerando-os hereges. Para eles todos eram ditadores e infiéis, ainda que Bin Laden estivesse disposto a cooperar com os ex-baazistas iraquianos (aliados de Saddam Hussein) contra os ocupantes estadunidenses, o que afirmou em uma gravação de áudio a qual a CIA, tipicamente, não deu importância. Nunca elogiou o Hamas e dificilmente seria digno da definição de “guerreiro sagrado” que esse grupo dedicou a ela, o que foi parar, como de hábito, diretamente nas mãos israelenses.

Nos anos posteriores a 2001, tive uma débil comunicação indireta com Bin Laden. Certa vez, reuni-me com um dos sócios no qual confiava na Al Qaeda, em uma localidade secreta do Paquistão. Escrevi uma lista de 12 perguntas, a primeira das quais era óbvia: que tipo de vitória a Al Qaeda pode proclamar, uma vez que suas ações conduziram à ocupação de nações muçulmanas por Washington? Durante semanas não houve resposta. De repente, em um fim de semana, quando esperava para dar uma conferência em San Louis, Missouri, nos EUA, me disseram que a Al Jazeera acabava de difundir uma nova gravação de Bin Laden. E ele respondeu – sem fazer menção a minha lista – uma a uma minhas 12 perguntas. Ele queria que os estadunidenses fossem ao mundo muçulmano…para poder destruí-los.

Quando Daniel Pearl, jornalista do Wall Street Journal, foi sequestrado, escrevi um longo artigo no The Independent, no qual suplicava a Bin Laden para que salvasse a sua vida. Pearl e sua esposa cuidaram de mim quando fui golpeado na fronteira afegã, em 2001; ele inclusive me deu o conteúdo de seu livro de contatos. Muito tempo depois me disseram que Bin Laden tinha lido meu artigo com tristeza. Mas Pearl já havia sido assassinado. Ou pelo menos foi isso que ele teria dito.

As obsessões de Bin Laden infestaram a sua família. Uma esposa deixou-o, outras duas parecem ter morrido com ele no ataque estadunidense do domingo. Conheci um de seus filhos, Omar, no Afeganistão, em 1994; estava com seu pai. Era um menino simpático e perguntei se ele era feliz. Sim, me respondeu ele em inglês. Mas no ano passado ele publicou um livro chamado “Living Bin Laden”, no qual, ao descrever como seu pai matou os cães que ele amava em um experimento de guerra química, chamou-o de homem malvado. Neste livro, também recordou nosso encontro e concluiu que devia ter respondido que não era uma criança feliz.

Ao meio dia desta segunda-feira eu já tinha recebido três chamadas telefônicas de árabes, todos seguros de que os estadunidenses mataram um dublê de Bin Laden, do mesmo modo que muitos iraquianos acreditam que os filhos de Saddam Hussein não morreram em 2003 e que o próprio Saddam tampouco foi enforcado. No seu devido tempo, a Al Qaeda nos dirá. Certamente, se todos estamos equivocados e era um dublê, veremos mais um vídeo do verdadeiro Bin Laden…e o presidente Obama perderá a próxima eleição.

Tradução: Katarina Peixoto

Publicado no: http://www.cartamaior.com.br

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